"Gente, vamos ad gentes!"
Nestes 40 anos, o desdobramento do magistério
universal da Igreja (Vaticano II, Encíclicas)
foi processado e fertilizado através do magistério
latino-americano que está presente não
só nos documentos de Medellín (1968),
Puebla (1979), Santo Domingo (1992), da CLAR, da CNBB
e da CRB, mas também nas práticas pastorais
e no chão martirial do povo pobre e de seus agentes
pastorais que deram a vida pela causa do Reino.
1. Da origem
Deus é amor que se revelou como Deus-Trindade.
Esse amor trinitário transborda, como uma fonte,
nas relações entre o Pai, o Filho e o
Espírito Santo, e nas missões do Filho
(encarnação) e do Espírito Santo
(doação). Jesus, o Enviado do Pai, coloca
os discípulos na linhagem da "Missão
de Deus": "Como tu me enviaste ao mundo, também
eu os enviei ao mundo" (Jo 17,18). Por causa desta
origem a Igreja peregrina é por sua natureza
missionária (Ad gentes, 2).
2. Da meta
A Igreja - Povo de Deus (Lumen gentium, 9-17) - povo
messiânico e profético - nasceu da "Missão
de Deus" que se dirige, em Jesus Cristo, historicamente,
a toda a humanidade. Jesus enviou seus discípulos
para anunciar a boa notícia da assunção,
da recapitulação e da reintegração
da humanidade e do mundo no projeto de Deus (Nova Aliança).
Na festa de Pentecostes, o conjunto dos discípulos
se torna explicitamente Igreja - Povo de Deus. Este
povo vive o envio trinitário no seguimento de
Jesus, anunciando o Reino como meta historicamente relevante
e escatologicamente significativo, como a vida religiosa.
O novo Povo de Deus convoca toda a humanidade para o
encontro definitivo com Deus. É um povo que tem
como horizonte um mundo sem fronteiras. Procura, como
seu Mestre de Nazaré, empurrar fronteiras religiosas
e étnicas, geográficas e culturais. Não
terceiriza essa tarefa para o mercado. A Missão
vem de Deus e volta para Deus.
3. Dos protagonistas
Em seus discursos axiais da Sinagoga de Nazaré
(Lc 4), das Bem-aventuranças (Mt 5) e do Último
Juízo (Mt 25), Jesus de Nazaré é
muito claro. Os protagonistas e o núcleo central
de seu projeto, que é o Reino, são as
vítimas (os pobres, contritos, cativos, cegos,
famintos, sedentos, oprimidos, odiados, peregrinos estranhos,
maltrapilhos, enfermos). Mas estes não são
apenas os protagonistas ou os destinatários do
projeto missionário, são também
os representantes de Deus no mundo. Como tais apontam
para um outro mundo que é necessário,
possível e real. Um dos novos imperativos é
a tradução da opção pelos
pobres para uma opção e articulação
missionária com os pobres. Para os pobres reserve-se
sempre o melhor: o melhor tempo, o melhor vestido, o
melhor espaço. O Povo de Deus que participa não
só do sacerdócio comum de todos os fieis
(cf. LG 10), mas também da infalibilidade "no
ato de fé" (LG 12), se constitui a partir
dos pequenos, pobres e excluídos. Na lógica
do Reino, os outros, os pobres e os que vivem na esfera
sombria do mundo, são caminhos da verdade e porta
para a Vida. Isso é um indicativo para a importante
tarefa da escolha e formação de lideranças.
4. Dos conflitos
A Igreja - Povo de Deus que caminha até os confins
do mundo e do tempo, vive a sua missão no meio
de conflitos. Por conseguinte, essa missão é
sempre uma missão profética, disposta
a perder tudo. Na vida religiosa, os votos apontam para
essa disponibilidade da perda total. Ao colaborar na
construção do projeto de Deus denuncia
o antiprojeto. O antiprojeto é o reino do pão
não partilhado, do poder que não se configura
como serviço, do privilégio que favorece
a acumulação e do prestígio que
organiza eventos de ostentação em vez
de articular processos de transformação.
No início da vida pública de Jesus, este
antiprojeto está presente nas tentações
(Lc 4,1). Reconhecemos, hoje, o antiprojeto no mundo
formatado pelo sistema neoliberal, com a sua lógica
de custo-benefício, de concentração
de renda (os latifúndios) e de exclusão.
5. Da missão
A partir dos conflitos que envolvem os pobres e os outros,
os excluídos e os que sofrem, compreende-se a
missão como militância por um mundo melhor
e por transformações históricas
e pessoais concretas. A missão é integral
(abrange a pessoa em sua totalidade: corpo, alma, espírito,
intelecto, corporal, emocional, racional espiritual),
específica (junto a um determinado grupo social:
campo, cidade, afro-americanos, indígenas, pescadores,
sem-teto, excluídos, África ou Ásia)
e universal (articulação dos diferentes
segmentos sociais na causa comum do Reino). A missão
vai dos contextos concretos das Igrejas locais até
os confins do mundo. A missão convoca para fundar
comunidades, e essas comunidades se realizam pelo envio
(exogamia). O Povo de Deus vive universalmente contextualizado.
6. Do anúncio
O anúncio missionário tem uma estrutura
pascal e pentecostal. Isso significa, em sua dimensão
psicológica, ter coragem, ou melhor, não
ter medo diante da finitude da vida. A luta não
foi, nem será em vão! Em sua dimensão
teológica significa, anunciar a justiça
da ressurreição nos diferentes contextos
sociais e culturais. Através da ressurreição
de Jesus, Deus rasgou a sentença da morte do
Justo. O anúncio missionário é
um anúncio em defesa da vida em todas as suas
dimensões (desde a não-manipulação
de embriões até as questões ecológicas).
A operacionalização deste anúncio
acontece através de múltiplos sinais de
justiça e imagens de esperança.
7. Da visão do mundo
Cultivamos o trigo, não o joio (cf. Mt 13,24-30).
Sabemos, porém, que o joio faz parte da realidade
histórica. O mundo dos "puros" seria
um mundo do terror e da intolerância. A ambivalência
da realidade histórica, das pessoas e do mundo
e as estruturas de pecado que atravessam o mundo, não
anulam a graça. Somos otimistas. O mundo é
essencialmente bom porque foi criado e redimido por
Deus. Acreditamos na presença de Deus no outro
e em nós, mas temos consciência da fragilidade
de nossas obras. Sabemos que carregamos a graça
de Deus em vasos de barro. Acreditamos na dimensão
escatológica do Reino, mas não adiamos
nossos sonhos para o além. Não abrimos
mão do fim almejado no aqui, agora e hoje. O
fim pode estar presente nos passos do cotidiano. A ternura
do amor que é pra já, e o olhar místico
nos fazem ver em redor de nós e, ao mesmo tempo,
ver longe. Ação articulada com luta e
contemplação pode transformar a mera agitação
e o trabalho cotidiano ´sem graça` em ação
salvífica.
8. Dos meios
Trabalhamos com o culturalmente disponível. Assumimos
contextos e culturas onde experimentamos a "preparação
evangélica" do Verbo, desde a criação
do mundo. A solidariedade missionária se realiza
através da inculturação concreta
nos contextos (cf. Gaudium et spes, 32). Meios sofisticados
são um contra-testemunho para a missão.
A eficácia missionária não está
nos instrumentos utilizados, mas na coerência
entre a mensagem do Reino e sua contextualização,
também através do nosso estilo de vida.
Entre todos os meios, porém, a partilha, simbolicamente
celebrada na Eucaristia, é o "instrumento"
mais eficaz da missão porque permite ver e seguir
Jesus. Ao repartir o pão, os discípulos
de Emaús reconheceram Jesus ressuscitado. Só
o pão repartido vai saciar a fome do povo.
9. Da identidade
A identidade missionária é a identidade
do caminho. Peregrinamos no mundo sem ser do mundo.
A peregrinação nos faz irmãos e
irmãs dos migrantes, dos sem-teto e sem-terra.
Abrimos caminhos, não casas. Somos esperança
de água no tempo de seca, esperança do
pão no tempo de fome, esperança de sentido,
num mundo absurdo. Somos esperança pela nossa
presença, pelo testemunho, pelo serviço
e pelo anúncio do Reino. Somos cidadãos
do Reino, não funcionários de instituições
ou sistemas. Somos areia, não óleo nas
máquinas do antiprojeto. O caminhar na utopia
do Reino constitui a forma mais radical da partilha.
10. Da gratuidade
O Evangelho da Graça se faz presente em todas
as formas de doação da vida: no diálogo
paciente, na presença silenciosa, no testemunho,
na contemplação e na ação,
na caridade, na misericórdia e na justiça.
Tudo que sustenta a esperança num mundo em desespero
é um desdobramento da Boa Nova. A fundação
da Igreja na festa de Pentecostes e a gratuidade da
salvação ligam ação e anúncio
missionário de um modo especial ao Espírito
Santo. A Igreja da Nova Aliança fala todas as
línguas e supera a dispersão de Babel
(cf. Ad gentes, 4). O Espírito Santo é
o pai dos pobres e o protagonista da missão,
mas ele também é dom divino. As três
formas do agir de Deus são, segundo Sto. Agostinho,
criar (a pessoa humana), gerar (Filho de Deus) e doar
(Espírito Santo). O Espírito Santo é
Deus no gesto do Dom. Na gratuidade se concretiza a
resistência contra a lógica hegemônica
de custo-benefício (cf. Ef 2,8s). A gratuidade
é a condição da não-violência
e da paz. A gratuidade aponta para a possibilidade de
um mundo para todos.