Província Franciscana da Imacula Conceição do Brasil
São Paulo, 13/02/2012
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DIÁRIO DO PEREGRINO
 

Celebração Eucarística no Cenacolino
Cenácolo
Representação da Última Ceia
Basílica da Dormição de Maria
O grupo de frades na Terra Santa
Ícone da Assunção de Maria
Frei Fernando (à esq.) e o Custódio da Terra Santa
Cortejo do Patriarcado Armênio Ortodoxo
Museu do Holocausto
Iconostase da Igreja Melquita

Diário do Peregrino
Dia 27 de julho (domingo)


Por Frei Ivo Müller
(texto) e Por Frei César Külkamp (fotos)

Saímos de Ain Karem às 08h00. O trânsito estava bastante intenso, por ser o primeiro da semana para os israelenses. Nem parecia domingo, a não ser pelo espírito dominical que nos guiou, até a celebração da Eucaristia.

Tivemos a nossa celebração no Cenacolino, às 09h00, presidida pelo Frei Fernando A. Lima, ladeada pelo David e pelo Frei Jaime.

O Cenacolino foi construído pelos franciscanos em 1936, a 20 metros do verdadeiro Cenáculo. Sofreu várias destruições por causa das guerras. A arquitetura de hoje, restaurada na década de 80, é mérito do arquiteto Fr. Alberto Prodomo, da Custódia. Uma atmosfera envolvente acolhe peregrinos do mundo inteiro que aqui podem participar da eucaristia e meditar os eventos da bíblia relacionados à última ceia e ao Espírito Santo.

Após a celebração, fomos convidados pelo sacristão para um suco e uma água no refeitório da comunidade. A seguir, iniciamos a nossa visita aos locais cristãos do Monte Sião. Neste monte, recordamos uma série de fatos da bíblia. Porém, foi chamado de Sião, depois da destruição do Templo (70 d.C.). Antes disso, o nome Sião está relacionado ao monte onde estava o templo, onde hoje está a mesquita de Omar. No Monte Sião atual, é situado o episódio da Última Ceia, Lava-pés, Aparição de Jesus no dia da Páscoa, Pentecostes, escolha de Matias, e o Primeiro Concílio de Jerusalém.

O Cenáculo histórico fica a uns 20 metros atrás do cenáculo dos franciscanos (Cenacolino). Este lugar é franciscano, porém está nas mãos dos judeus, desde o século passado. Fazia parte da grande basílica da Haghia Sion, construída no século IV, pelo patriarca João, que incorporava o cenáculo, sobre a sinagoga judeu-cristã e a Dormição.

Em 1342, com a compra feita pelos reis de Nápoles, tudo passou às mãos dos frades menores, como presente destes reis. Ali, funcionava a Casa Nova, que acolhia os peregrinos, até o séc. XVI, quando os turcos tomaram o lugar dos franciscanos, que se mudaram ao atual Convento São Salvador. Era o centro da custódia. O atual cenáculo é histórico.

A tradição vem dos primeiros séculos da Igreja, quando ali existia uma Sinagoga judeu-cristã. Os franciscanos construíram ao lado direito desta sinagoga. O segundo andar é a sala do cenáculo, sobre a tumba de Davi, atual, que não é histórica, desde o século XII. A sala do cenáculo é restaurada, sobre as ruínas bizantinas, cruzadas e muçulmanas. Detalhe a não perder de vista é o capitel do lado oriental, com pelicanos, representando a Eucaristia. A sala foi restaurada pelos israelitas, com a ajuda de um bispo da Itália.

Depois de passarmos pelo Cenáculo, visitamos a Dormição de Maria. O santuário é uma linda basílica, construída por Guilherme II, da Alemanha, no século passado, e doada aos beneditinos. Nesta basílica, uma das mais belas da Terra Santa, está a cripta de Maria, que recorda a sua morte, antes de ser transladada ao seu túmulo, que está no vale do Cedrón (Getsêmani). A igreja é ornamentada com lindos mosaicos, representando a história da salvação, com as várias mulheres do Antigo Testamento (mosaico na cobertura da cripta), bem como os profetas que anunciaram Cristo, ao centro do pavimento superior, seguido da representação do Zodíaco, onde Cristo é o centro do universo.

Na seqüência da ordem do dia, fomos caminhando da Porta de Sião até a sede da Custódia (Convento São Salvador). No caminho, fizemos uma parada no Patriarcado Greco-Melquita para visitarmos uma Igreja Melquita, toda decorada em forma de ícones.

É relevante refrescar a nossa memória para dizer que existem hoje na configuração da Igreja Católica, a Igreja de Rito Latino e as Igrejas de Rito Oriental. As Igrejas Orientais (sui iuris) são classificas de acordo com o rito de origem, ou seja, o Rito Alexandrino, o Rito Antioqueno, o Rito Armênio, o Rito Caldeu e o Rito Bizantino (Constantinopolitano). A Igreja Melquita é parte integrante do Rito Bizantino.

As 21 Igrejas Católicas Orientais surgiram ao redor dos Patriarcas Católicos no Oriente Médio, mantendo, contudo, a comunhão com a Igreja de Roma. Atualmente, são cerca de 15 milhões de fiéis presentes no mundo inteiro, sobretudo presentes no Oriente Médio. A Igreja que visitamos está em primeiro lugar no número de fiéis na Palestina, seguida da Igreja Católica Latina.

Às 11h30 fomos recebidos oficialmente pelo Custódio da Terra Santa, Frei Pierbattista Pizzaballa. Após a apresentação inicial, ouvimos a mensagem do Custódio, que discorreu longamente sobre a presença da Igreja Católica na Palestina, conforme o resumo que segue:

- Em Israel, não há problema econômico. A maioria da população é da classe média, tendo trabalho e condições de bem viver e administrar a sua vida aqui nestas terras. Os cristãos que aqui vivem, têm os seus direitos sociais preservados, com um bom sistema de saúde, água, telefone, moradia, desde que estejam sob a tutela do Estado de Israel. O principal problema acontece, quando as portas se fecham a eles, pelo fato de sua adscrição religiosa não corresponder ao Judaísmo;

- O cristianismo nestas terras está fadado a desaparecer. O problema já começa com a própria natalidade, ou seja, o gradativo aumento de filhos dos judeus e dos muçulmanos e a diminuição dos filhos de famílias cristãs (1 a 2 por família);

- O matrimônio acontece somente dentro da religião. Não tem respaldo do Estado. O mesmo acontece com a sepultura, que é registrada somente na religião de adscrição da pessoa. Daí, justifica-se a classificação entre cemitérios judeus, cemitérios muçulmanos e cemitérios cristãos;

- O secularismo está entrando também em Israel e na Palestina. Por incrível que pareça, quanto mais estudados, mais seculares, mais itinerantes, porque descobrem novas possibilidades econômicas, políticas e religiosas;

- O grande desafio do momento é manter os cristãos unidos, em comunidade. Daí, a importância das escolas e das comunidades reunidas ao redor do mistério celebrativo;

- O muro da vergonha causou separação e divisões. É uma ferida, que divide e cria obstáculos. Devido aos rigorosos controles em suas portas, não é possível entrar e sair de Jerusalém (motivos de trabalho e outros). São mais de 40% dos cristãos, que perderam o seu trabalho por causa do muro. A posição da Custódia é veementemente contrária ao muro;
- A comunidade cristã é bastante instruída. Por outro lado, isso facilita a emigração;
- A Igreja encontra-se em dificuldade de diálogo, porque dentro do próprio cristianismo local existem divisões e disputas;
- Estamos aqui como cristãos e testemunhamos através da nossa convivência pacífica diante das duas grandes religiões;
- Os frades são poucos diante da demanda de serviços nos lugares santos. No momento, são 18 casas (santuários, comunidades) que têm apenas um frade aos seus cuidados. Diante da nossa fragilidade, aceitamos ajuda externa. No momento, destacam-se o Mundo X (Monte Tabor) e a Comunidade Shalôm (Nazaré). São novas formas de solidariedade aos excluídos do sistema e novas formas de reavivar a nossa presença, com a ajuda externa. Também contamos com uma presença significativa de sacerdotes diocesanos, especialmente no Santo Sepulcro. Contudo, preservamos o que é próprio da nossa parte (sacristia e atendimento aos peregrinos);
- Diante das necessidades que temos, aceitamos ajuda das Províncias e outras entidades. Pode-se vir por um período curto (um ano) ou longo, de acordo com as condições de cada oferta de frades a serviço da Terra Santa. Necessariamente, não precisa começar pelo Santo Sepulcro, que é sempre muito difícil a quem chega aqui;
- A Custódia não é uma entidade, como as demais da Ordem. É, por excelência, um lugar de missão da Ordem, de acordo com o nosso carisma fundacional.

Após o rico momento com o Custódio, nos dirigimos ao grande refeitório do São Salvador, para o grande almoço. Depois, um momento de aperitivo, café e visita ao terraço, onde se tem uma vista maravilhosa da Cidade Velha.

Na parte da tarde, um grupo foi visitar o Museu do Holocausto, todo reestruturado e cheio de novidades das últimas descobertas, e o outro, foi diretamente pra Ain Karem, para descansar e para leituras pessoais até o final do domingo.

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