Sem dúvida, nossa geração está mais ligada à imagem do que à palavra. Imagens em rápida sucessão passam constantemente diante de nossos olhos com a intenção de prender nossa atenção e induzir-nos a decidir sem refletir. A cultura da
imagem reforça o fenômeno do imediato. Separados do passado, vivemos submissos às exigências do presente numa subjetiva
relativização dos valores.
Nossa vida não é só permanentemente marcada por aquilo que dizem e promovem os meios
de comunicação social, mas até as dimensões mais íntimas de nossa existência tornam-se material de exposição e de consumo
público. Os meios de comunicação estão intimamente ligados às forças do mercado; entre outras coisas, vivem
para mostrar ininterruptamente os conflitos geradospela violência; comunicam a imagem de uma humanidade
presa de um permanente ciclo de frustração.
Por outro lado, cresce a consciência de que a cultura da imagem conduz à esterilização da imaginação, à redução do indivíduo a consumidor de imagens. Assim, vemos que se multiplicam as propostas alternativas de espaços educativos que incentivam a capacidade imaginativa e criativa do ser humano, salvaguardando nossa condição de criadores de símbolos.
Em nossa sociedade, cresce a alternativa de uma virada simbólica (poesia, rito, pintura, dança, música,
gestos), que ajude a unir-se profundamente à verdade pessoal e à transcendência.
Na sociedade civil, aumenta a exigência de uma ética dos meios de comunicação, para que eles não
sejam somente receptáculos de misérias humanas, mas instrumentos capazes de oferecer imagens reais de justiça,
de paz e de integridade da criação e de contribuir para criar uma esperança da importância e do significado
globais.
A realidade nos confirma que o trigo e a cizânia crescem juntos (cf. Mt 13,24-30); isso constitui um convite
urgente ao discernimento evangélico para decidir que direção deve tomar nossa caminhada de transformação
pessoal e institucional. Percebemos a crise de fé provocada por estas realidades como um momento de
graça, um kairós, que nos desafia a recriar nossa experiência de crentes em sintonia com os desafios de uma
época em crise. É uma ocasião de experimentar um credo que faça emergir a totalidade da pessoa e a comprometa
com a paz e com o bem. Também a crise da ética é vista como um momento de graça para desenvolver
uma nova ética da vida, uma ética da coerência que supere a fragmentação mediante uma caminhada de
harmonização e de integração: pensamentos e obras, oração e ação, palavra e trabalho, fé e vida, aspirações do coração para
a fé e para a esperança e sua encarnação em formas visíveis (ações, ritos, estruturas).
Documento do Capítulo geral da Ordem dos Frades Menores - Assis, Pentecostes de 2003