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São Paulo, 15/03/2010
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15/06/09

A capital italiana tem o privilégio de ver um momento histórico: a exposição “Beato Angelico, alvorada do Renascimento”, com obras do frade dominicano Giovanni da Fiesole, ou simplesmente como ficou conhecido, Fra Angelico. A mostra no Musei Capitolini, que vai até o dia 5 de julho, revela como a oração pode-se converter em motivo de inspiração para o artista.

Uma das obras mais importantes, Ascensão, Juízo Universal e Pentecostes (1ª foto à direita), da Galeria Corsinni de Roma, nunca tinha sido sequer sido exposta. À entrada, vê-se uma Virgem da Humildade. Sóbria, esta obra relaciona-se com a Tebaida, de c. 1420, colocada logo depois e que remete para a espiritualidade dos eremitas. Numa versão quase cinematográfica, são apresentadas cenas da vida cotidiana de frades e ascetas, dos quais os mendicantes (franciscanos e dominicanos, ordem à qual Fra Angélico pertencia) são também devedores.

No catálogo da mostra, Maurizio Calvesi fala da "visão abertamente naturalista", ou do naturalismo "naturado" de Angélico. O monge-pintor segue a idéia medieval de uma natureza criada por Deus, imóvel, mas opõe-lhe um idealismo que regenera e redimensiona o misticismo medieval. É uma obra "tradicional e nova" ao mesmo tempo, conclui. Uma aurora do Renascimento, como chama a exposição.

Fra Angelico, que começou nas artes como miniaturista, nasceu na Toscana em 1400. Seu nome, antes de entrar para a ordem dos Dominicanos, era Guido di Pietro. Ao que parece, seus primeiros trabalhos como pintor foram realizados entre 1415 e 1420, proporcionando-lhe certo renome nos círculos artísticos.

Foi por essa época, aos 20 anos, que di Pietro incorporou-se à vida religiosa, onde ficou conhecido como Fra Giovanni, autor de numerosas pinturas nas paredes e altares do convento onde vivia. Seu primeiro trabalho documentado faz parte do acervo do Museu de San Marcos, em Florença, que abriga boa parte de sua obra marcada pelo uso da luz com intenção não naturalista, mas estética, e expressa através do emprego inteligente da cor.

Sua vocação contemplativa fica evidente em uma de suas obras de maior substância, "A Descida", que induz o espectador a prestar mais atenção à veneração e amor dos santos que ao sofrimento de Cristo.

Em 1450, Fra Angelico foi bastante ativo em Roma, onde desenvolveu um ciclo de cenas das vidas de São Estêvão e São Lourenço para capelas do Vaticano. Sua obra mais famosa, reproduzida em pôsteres e postais em todo o mundo, é a Anunciação, hoje parte da coleção permanente do Museu do Prado de Madri. Depois de uma breve peregrinação pelo interior da Itália, Fra Angelico retornou a Roma onde morreu em 1454.

Embora tenha fascinado a hierarquia da Igreja com seu estilo incomparável, Fra Angélico nunca aceitou cargos de chefia. “É mais fácil obedecer que mandar”, dizia. A beleza de sua arte e a santidade de sua vida garantiram ao artista o apelido de Fra Angelico, que quer dizer “irmão angélico” porque dizia-se que ele pintava como os anjos “A sutileza e a sofisticação técnica da mente e da mão de Fra Angelico asseguraram-lhe um lugar à parte entre os artistas da Renascença italiana”, diz Guillermo Solana.

Timothy Verdon (L'Arte Cristiana in Italia, vol. 2), possivelmente o mais importante especialista de arte sacra italiana, escreve sobre Fra Angélico: "O primeiro Renascimento florentino produz o maior intérprete de arte cristã de todos os tempos: (...) um religioso dominicano que conhecia desde dentro os mistérios da fé que era chamado a pintar."

Este fundo conhecimento dos mistérios da fé levava G.C. Argan (citado por Maurizio Calvesi no catálogo da exposição) a escrever, em 1955, sobre o monge-pintor: "Envolveu-se a figura de Fra Angélico com uma lenda, da qual [o seu biógrafo, Giorgio] Vasari é o principal responsável. Grosso modo, poderia resumir-se assim o seu ponto de vista: Angélico era um santo, portanto a sua pintura é santa. Antes de pintar, ele rezava e chorava e as suas obras reflectem as visões paradisíacas dos seus êxtases."

"O Paradiso", outra das obras em destaque nesta mostra, é uma das visões destes êxtases: a multidão de anjos converge para um centro, onde estão Cristo e a Virgem, destacados por um feixe luminoso. Esta utilização da luz, central na pintura de Fra Angélico, corresponde a um programa teológico intenso. Para o monge, traduzia a centralidade do tema da oração contemplativa. Na teologia cristã, a luz é o símbolo de Cristo ressuscitado. Como também é a primícia da criação: "Deus disse: 'Faça-se a luz.' (...) e separou a luz das trevas...".

A dimensão da contemplação é essencial neste monge. Mas a esta característica não são alheios também fatores como a profundidade do espaço, o realismo das cenas (com o objetivo de representação sacra) e o simbolismo teológico para o qual elas remetem - a porta, por exemplo, é um ícone frequente, numa representação que assume a arquitetura como outra das linguagens contemporâneas.

Fra Angelico pintou também o Convento de São Marcos por encargo do Papa Eugenio IV. O pontífice lhe propôs em 1446 ser bispo de Florença, mas o artista sentiu-se indigno e declinou da proposta, dizendo que devia obediência em primeiro lugar aos superiores de sua comunidade.

O túmulo do beato Angelico encontra-se na basílica de Santa Maria Sopra Minerva, muito próximo do Panteão de Roma, em cujo convento o artista morreu em 1454. Ali jazem também os restos mortais de Santa Catarina de Sena. João Paulo II, no motu proprio que escreveu pela beatificação do artista, assegurava que suas obras “são fruto de suma harmonia entre a vida santa e a força criativa que atuava nele”.

Beato Angelico - L'Alba del Rinascimento
Musei Capitolini (Capitólio), Roma
Terça a Domingo, 9h00 - 20h00
Até 5 de Julho

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