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A comunhão de Maria com a Humanidade
Frei José Carlos Correa Pedroso
Além da Antífona de Nossa Senhora, do Ofício
da Paixão, vamos ler outra oração dedicada
à Mãe de Deus:
Salve, ó senhora, Rainha santa, Mãe santa
de Deus, ó Maria, que sois Virgem feita Igreja, e
escolhida pelo santíssimo Pai celestial, que vos
consagrou com seu santíssimo e dileto Filho e o Espírito
Santo Paráclito! Em vós residiu e reside toda
a plenitude da graça e todo o bem! Salve, ó
palácio do Senhor! Salve, ó tabernáculo
do Senhor! Salve, ó morada do Senhor! Salve, ó
manto do Senhor! Salve, ó serva do Senhor! Salve,
ó Mãe do Senhor, e salve vós todas,
ó santas virtudes, derramadas, pela graça
e iluminação do Espírito Santo, nos
corações dos fiéis, transformando-os
de infiéis em fiéis do Senhor! (Saudação
à Mãe de Deus).
Chamar Nossa Senhora de Virgem feita Igreja é uma
das maiores originalidades de São Francisco e demonstra
que a viu realmente como uma imagem do Povo de Deus:
Como o povo de Israel, que Deus escolheu entre os mais desconhecidos
da terra, Maria era uma virgem quando o Senhor a escolheu:
na cultura antiga, não sendo homem nem sendo a mãe
ou a esposa de alguém, era fraca, não tinha
importância, era nada.
Mas ela foi feita cheia de graça por pura bondade
do Senhor, como o povo que era escravo no Egito, e Deus
assumiu como sua esposa.
E ela foi a primeira dentro de todo o Povo a receber a
plenitude da vida de Deus, essa vida trinitária que
Ele quer que chegue a todos.
Nela ficou claro que toda essa união com a divindade
transforma-a, eleva-a, mas não absorve sua personalidade
nem a tira de sua normalidade, como deve acontecer com todo
o povo.
Como deve acontecer com todo o Povo, ela se tornou um novo
cristo, uma colaboradora no anúncio do Bem (começou
com Isabel, passou por Caná, acompanhou Jesus pobre,
foi para a casa de João...).
Por tudo isso, como lembra o magnífico capítulo
8 da Lumen Gentium, Maria merece, muito mais que Eva, ser
chamada a "Mãe dos Viventes". Francisco
preferiu chamá-la Virgem feita Igreja.
Somos nós que temos que fazer o Povo do nosso tempo
ir sendo transformado numa Igreja feita Maria. É
o nosso campo de trabalho: nossas ações diárias
são capazes de construir a comunhão da humanidade.
Para Francisco, Maria é um ponto de chegada muito
claro para o Povo: nós vamos ser aquela esposa descendo
do céu coroada com doze estrelas. Ele lembrou isso
no cântico Ouvi, pobrezinhas!, que escreveu para as
clarissas: Porque cada urna será rainha no céu,
coroada com a Virgem Maria!
E também o propôs como o ponto mais alto a
alcançar no Cântico de Frei Sol: Bem-aventurados
os que as suportam em paz, que por vós, Altíssimo,
serão coroados!
Mas Francisco e Clara ainda viram Maria como o Povo evangelizador,
que assumiu ser o Cristo místico. Viram-na como peregrina
acompanhando Jesus pelo mundo, pobre e vivendo de esmola.
Por isso, o Fundador também a fez Advogada da Ordem
e pediu que os frades nunca abandonassem a Porciúncula,
a casa de Nossa Senhora em que a Ordem nasceu.
A humanidade vai se realizar quando for a Cidade de Deus.
Maria é a figura dessa Pátria total e definitiva.
Frei José Carlos Correa Pedroso é capuchinho,
do Centro Franciscano de Espiritualidade de Piracicaba (SP) |