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São Paulo, 09/02/2012
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11/08/2010

A Comissão Episcopal para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, formada por quatro bispos e um assessor, busca articular o Serviço de Animação Vocacional na Igreja do Brasil, através dos Regionais da CNBB. Tem a missão de acompanhar a formação dos presbíteros articulando a comunhão dos Seminários e Institutos, também quanto aos estudos. Acompanha a vida e a atividade pastoral dos diáconos, presbíteros e bispos. Os diáconos, articulados na Comissão Nacional de Diáconos, são acompanhados na formação através de encontros e troca de experiências. Os presbíteros, organizados pela Comissão Nacional de Presbíteros, encontram na Comissão um espaço de motivação e suporte para os seus encontros nacionais. Ela também procurar estabelecer o diálogo e a comunhão com a Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e a Conferência dos Institutos Seculares (CNIS). Para os bispos, especialmente os novos e eméritos, a Comissão oferece um espaço de comunhão e encaminhamento de temas ligados à vida e ao ministério dos mesmos.

Nesta entrevista, concedida à Revista Ave Maria, D. Leonardo Ulrich Steiner, Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia e Membro da Comissão Episcopal de Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada, fala sobre o tema.

O que é vocação sacerdotal?
D. Leonardo - É chamado! Chamado é encontro! O texto de Aparecida recolhendo as palavras do Papa Bento XVI recorda que a experiência cristã nasce do encontro. O presbítero foi encontrado, ele se descobriu na pessoa de Jesus Cristo pela Palavra de Deus, pela vida da Igreja. A vocação nasce do encontro. Encontro entre pessoas. Encontrada a pessoa se sente chamada. A vocação, no entanto, está relacionada ao ministério; ministério referido à pessoa de Jesus Cristo. O ministério do presbítero é continuação do ministério de Jesus Cristo que se relaciona com pessoas anunciando o Reino de Deus por palavra e obras. Assim, a vocação e o ministério sacerdotal são dons do Senhor à sua Igreja para continuar a missão de Jesus Cristo, Bom Pastor. Na elaboração das Diretrizes de Formação para os Prebíteros os Bispos expressaram essa realidade dizendo: “é um processo contínuo de conversão que se inicia no encontro pessoal com o Senhor e se fortalece na decisão de colocar-se como discípulo missionário de Cristo, em comunhão com todos os fiéis, a serviço do Reino de Deus e de sua justiça”. Vocação tem sua dinamicidade e conduz à maturação, realização da pessoa. A vocação se distingue, assim, de um chamado para exercer uma função na Igreja. O ser presbítero na Igreja não é função, mas vocação, ministério, um serviço. Santo Agostinho, em um de seus sermões, afirmava: “Quem é posto à frente do povo deve ser o primeiro a dar-se conta de que é servo de todos. E não desdenhe de o ser, repito, não desdenhe de ser servo de todos, pois não desdenhou de se tornar nosso servo aquele que é o Senhor dos senhores”.

Como está a vocação religiosa masculina e feminina no Brasil?
D. Leonardo - Encontramos tantas belezas e percebemos dificuldades. Dificuldade com a perseverança, com a pertença, com uma vida simples e pobre, com projetos pessoais e o carisma da Congregação, com uma vida de encontro diário com Aquele que me amou e me chamou. A relação pessoa-pessoa fundamento da vida de fé, nem sempre se expressa como um processo de vida, como um caminho existencial. Essas dificuldades e outras estão presentes na Vida consagrada e, por isso, na realização e maturação da vocação. Mas, a vocação religiosa masculina e feminina no Brasil continua sendo o que sempre foi: sinal da presença do Reino. Na história da Igreja, o Espírito Santo vai suscitando modos de viver o Evangelho; são expressões criativas para indicar a vida do Reino. A Vida consagrada sempre indicou as realidades definitivas, o Reino definitivo, apesar das fraquezas. Existe uma busca na vida consagrada masculina e feminina de ser essa presença que o Espírito deseja. Quanta presença fecunda nas áreas de missão, entre os pobres, no serviço da evangelização, na vida contemplativa, nos hospitais, na educação, nos meios de comunicação, na promoção da vida humana, na luta pela justiça. Quantas mulheres e homens que, encontrados por Cristo, colocaram a mão no arado e não olharam para trás. A Igreja no Brasil é rica e dinâmica pela presença da Vida consagrada. A CRB está enviando um grupo de religiosas para servir as crianças órfãs e mutiladas no Haiti que correm o perigo de serem usadas para o comércio de órgãos. A vida consagrada, ao perceber essas provocações de Deus, afirma a grandeza da pessoa humana como filho/a de Deus e que foi chamada a servir, ser sinal do Reino definitivo.

É fato que a vocação sacerdotal e religiosa está diminuindo?
D. Leonardo - A vocação sacerdotal e vocação consagrada não diminuem. Elas são parte da vida da Igreja, são dom. No entanto, os dados demonstram que temos um número menor de pessoas que buscam a Vida consagrada masculina e feminina. O número de membros das Ordens, das Congregações, dos Institutos tem diminuído. Algumas Congregações têm encontrado dificuldade para continuar em determinados serviços e ministérios por falta de membros. Mas, temos Congregações com bom número de vocacionados e vocacionadas.
O clero diocesano tem aumentado. Não significa que em todas as Dioceses houve esse crescimento. Hoje, temos no Brasil um bom número de Dioceses que enviam padres para as missões. A nossa Prelazia de São Félix conta com a presença de 3 diocesanos enviados por outras dioceses e no próximo ano receberemos mais um. Uma participação cada vez maior dos leigos no anúncio do Evangelho, a pastoral da juventude sendo dinamizada e a pastoral vocacional organizada, tem ajudado a despertar jovens para o serviço na Igreja como presbíteros.
Não podemos ignorar o fenômeno das denominadas Novas Comunidades. Em muitas dioceses encontramos grupos de mulheres e grupo de homens que vivem, ou desejam viver, segundo o Evangelho em novos modos de ser Comunidade. Essas Comunidades serão purificadas e maturadas pelo Espírito e pelo tempo.

Quais as dificuldades que encontra?
D. Leonardo - Em cada época, a Igreja (nós) deve estar atenta às manifestações do Espírito. Em cada época existem dificuldades e possibilidades. Nós, segundo vários pensadores, vivemos uma mudança de época. Vão aparecendo novos parâmetros de valor que determinam a convivência humana, outras expressões religiosas que determinam as figuras de Deus, outro modo das relações que são mais ocasionais, outro sentido do econômico que ignora a gratuidade, outro sentido de tempo, outro sentido de futuro. Estamos numa nova época. A Igreja para ser fiel ao Evangelho, significa as pessoas e as vocações, está no embate de procura e sondagem da nova época. Houve um tempo (ainda perceptível em diversas realidades) em que a presença de Deus era evidente, tangível, palpável. A ciência e a técnica, a virtualidade, abriram outras possibilidades para a humanidade. Deus não é mais evidente. Não que ele tenha desaparecido, mas não é mais visto por um bom número de pessoas como horizonte e sentido de tudo. É muito difícil ser discípulo/a e um enviado/a de uma Pessoa que não se tornou o horizonte, não criou um novo céu e uma terra na minha vida. Poderiam ser apontadas ainda outras dificuldades.
A experiência da fé cristã hoje, e por isso a vocação, passa por uma purificação e profundidade que gerará grandes homens e mulheres que costumamos denominar de santos.

Como deve ser apresentada essa vocação no mundo de hoje?
D. Leonardo -  A nossa dificuldade está em conseguirmos demonstrar a grandeza do Evangelho, do modo da vida em Jesus Cristo. Enquanto não houver um encontro com a pessoa de Jesus Cristo, como falar da vocação no hoje do mundo? O encontro cria horizonte, dá sentido, fundamenta uma existência. Encontro é relação de pessoa-pessoa, onde a iniciativa é de Deus. Significa uma gratidão profunda por ter sido encontrado/a. Gratidão que concede a graça da gratuidade, uma vida de entrega. Como uma mãe que na sua maternidade com todas as dificuldades e intempéries vive da gratuidade de amar. Às vezes, fico pensando que tentamos demonstrar a vocação como uma função, como uma ajuda. A vocação à vida Consagrada e mesmo ao sacerdócio não é um status, não é uma profissão com suas habilidades, nem mesmo um exercício ritual litúrgico. Vocação no tempo da ciência e da técnica, no tempo da virtualidade tem uma exigência maior e própria: relação entre pessoas, a gratuidade da Cruz! Talvez, dizendo de outra forma, vocação não é uma ideia, não é ideologia, não é um trabalho profissional. Mas chamado para uma relação própria com Jesus Cristo e com os irmãos/as na gratuidade. É essencialmente conformidade com Jesus Cristo, pastor, servidor, realizador da vontade do Pai.

Quais as suas expressões?
D. Leonardo - Sempre mais admiro nossos missionários/as. A grande maioria tem uma liberdade, uma disposição e uma disponibilidade invejável, um amor extraordinário pelos pobres e vivem pobres. O fundo que sustenta, alimenta, dinamiza uma existência é a pessoa de Jesus Cristo pobre e crucificado, caminho do Pai. A vocação é discipulado e envio! Numa Comunidade encontrei um jovem com o nome de Elias. Disse a ele: você bem poderia ser também um profeta. Ele me respondeu: sim. Quando falei o que ele deveria deixar para ser profeta ele disse: é difícil. Não deixarmos de dizer as exigências do chamado, a gratuidade de ser enviado/a. Toda vocação tem a sua exigência, a sua renúncia, a sua entrega, a sua morte e, por isso mesmo, possibilidade de plena realização, de vida. No encontro, isto é no amor, as exigências e as dificuldades demonstram a grandeza e nobreza do chamado!

Uma mensagem aos vocacionados e ao povo em geral.
D. Leonardo - O tempo da descoberta, do discernimento é precioso e fundamental. A possibilidade de seguir a Jesus Cristo e ser seu missionário/a como religioso/a, como padre é um dom que se recebe e necessita de cuidado, cultivo. Diria muito cultivo! Aos jovens que me procuram para entrar no seminário gosto de indicar a Palavra de Deus, a Eucaristia e os pobres como luz, alimento e lugar do cultivo, aprofundamento e maturação da vocação.
A vida familiar e a vida da Comunidade despertam e sustentam as vocações na Igreja. A vida familiar, a oração em família, a leitura da Palavra de Deus em família, a participação na Comunidade são essenciais para as vocações na Igreja. Não somente para a Vida Consagrada e presbiteral, mas também para a maternidade e a paternidade. Todas as pastorais, serviços, ministérios, deveriam ser expressão de sermos em Jesus Cristo a vida da Trindade. Quando a vida da cruz e ressurreição fluir em todas essas expressões sempre haverá entrega, gratuidade. Todos somos discípulos/as e missionários/as da Trindade.

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