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São Paulo, 24/05/2012
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22/04/2010

No próximo dia 1º de maio, nosso confrade diácono Frei Alvaci Mendes da Luz, atualmente residindo no Convento São Francisco, em São Paulo e atuando no Pró-Vocações e Missões Franciscanas, e a serviço da Evangelização, receberá a ordenação presbiteral em Tubarão, SC, sua terra natal, pela imposição das mãos de Dom Hilário Moser, bispo emérito da diocese. O relacionamento de Frei Alvaci com Dom Hilário remonta à sua infância, quando era coroinha na catedral de Tubarão. Posteriormente, ingressou no Seminário Diocesano N. Senhora de Fátima, onde cursou os estudos do Ensino Médio nos anos 1996 a 1998. Porém, desde o início acalentava o desejo de ser franciscano motivado pela atividade de Frei Silvério Weber na rádio e TV. Procurou orientação e acompanhamento em Forquilhinha, com Frei José Lino Lückmann.

Nesta fase encontrou a compreensão e o apoio de Dom Hilário e talvez, por isso mesmo, foi capaz de mudar de rumo. Em 1999 ingressou no aspirantado, que na época funcionava no Seminário São João Batista, em Luzerna. E, nos anos seguintes, seguiu as etapas da formação franciscana em Guaratinguetá, Rodeio, Rondinha e Petrópolis. Durante esses anos D. Hilário o acompanhou com interesse e carinho de um pai, visitando Frei Alvaci em algumas ocasiões. Daí nasceu o desejo que ele também fosse o bispo ordenante de seu ministério presbiteral.

Quando Frei Alvaci comentou conosco essa sua trajetória vocacional e o relacionamento com Dom Hilário, nasceu a idéia de fazermos uma visita ao bispo emérito de Tubarão, em São José dos Campos, SP, onde reside com seus confrades salesianos na Paróquia da Sagrada Família. Anteriormente, Alvaci já havia estado pessoalmente com ele para convidá-lo como bispo ordenante. Na manhã do sábado, dia 20 de março, eu, Frei Alvaci e Moacir Beggo, partimos em viagem para São José. Desejávamos fazer uma entrevista com Dom Hilário para uma reportagem em torno da história vocacional do nosso confrade, mas ampliando o panorama para uma dimensão maior, da Igreja, da vida religiosa e do ministério episcopal. Elaboramos algumas perguntas que foram enviadas previamente, por e-mail, a Dom Hilário como forma de unir sua vida e ministério ao fato da ordenação presbiteral.

Ao chegarmos ao grande pátio de estacionamento da paróquia, defronte à residência dos Salesianos, lá estava Dom Hilário, sob a sombra das árvores, risonho, fraterno, a nos acolher de braços abertos, com uma simpatia de irmão mais velho ou de um pai que espera ansiosamente a chegada do filho. Depois de nos acolher e apresentar seus confrades, o pároco Pe. André Cunha Figueiredo Torres, o vigário Pe. André Afonso M. Butti e o Irmão Antônio Gerotto, Dom Hilário nos conduziu para a sala de visita onde aconteceu a entrevista (cf. o texto).

Ao término da entrevista, nos ofereceu um almoço na companhia dos mencionados salesianos e de mais outros dois, estudantes de teologia do Instituto Pio XI, em São Paulo. O pároco, Pe. André Torres foi contemporâneo de Frei Walter Carvalho e de Frei Airton Rosa (Soneca), nos anos em que eles estudaram Teologia em Jerusalém. O ambiente e a acolhida deles todos foram da mesma medida e simpatia. Sentimo-nos absolutamente em casa. Após o almoço, Dom Hilário nos conduziu para uma visita à Igreja Matriz da Sagrada Família e, antes da despedida aproveitamos para uma última sessão de fotos no jardim ao lado da igreja.

Diante de Deus ninguém se aposenta, nem o bispo emérito
A ocasião da visita e, sobretudo da entrevista, foi um desses momentos que certamente ficará marcado para o resto de nossas vidas. Na medida em que Dom Hilário foi respondendo as perguntas da entrevista, nós três fomos sentindo delinear a estatura espiritual, religiosa e humana do Pastor, do mestre, do sábio e do ser humano, amadurecido na fé e no equilíbrio de uma vida plena, consagrada ao serviço de Deus e da humanidade.  A história pessoal de Dom Hilário é rica e profunda pelas situações que viveu. Depois que se afastou antecipadamente do ministério episcopal na Diocese de Tubarão, por razões de saúde, veio morar em São José dos Campos e continua sua missão evangelizadora na publicação dos seus ‘opúsculos’ pastorais (como ele mesmo intitula os livros que escreveu) sobre os sacramentos e a fé cristã. Ultimamente entrou de cheio na evangelização pela internet através de um blog pessoal e está animadíssimo com as perspectivas que se abrem nesse campo. Ao mesmo tempo, está integrado no trabalho pastoral da Paróquia da Sagrada Família, colaborando com seus confrades nas celebrações e no atendimento dos fiéis. Freqüentemente é convidado para pregação de retiros e palestras para o clero diocesano e para os religiosos, numa atividade condicionada à sua atual condição de saúde.

Neste meu depoimento, entre os muitos aspectos da figura humana e religiosa ímpar de Dom Hilário Moser, quero destacar dois aspectos que me impressionaram sobremaneira.  O primeiro é o fato de, aos quase 79 anos de idade, com restrições impostas pelas limitações de saúde, mantém uma atividade fecunda na evangelização, não se resignando numa mera contemplação, distante e isolada, da vida eclesial. Com luta e decisão, superou a difícil fase de adaptação à nova realidade de bispo emérito, descobrindo que o ministério não termina nunca, nem por direito nem por opção. Do seu gabinete de trabalho, está conectado com o mundo, através do anúncio, da catequese, da evangelização pela internet, sintonizado perfeitamente com os freqüentes apelos da Igreja para que o Evangelho seja levado aos novos areópagos. Por outro lado, continua sua atividade pastoral na publicação de subsídios catequéticos e espirituais, numa atividade intelectual admirável. A vida e a atividade de Dom Hilário atestam para aquilo que a Ordem Franciscana insistentemente coloca como sua prioridade mais urgente: a Formação Permanente. Não é preciso esperar pela aposentadoria para ‘habitar e atravessar as novas fronteiras’, como alertou o Capítulo Geral de 2009, porque não há mais um limite ou um tempo definido para a missão ad gentes e a missão inter gentes.

Salesiano ou franciscano, cepas de uma única raiz
 
A amizade e o relacionamento de Frei Alvaci e Dom Hilário Moser nos remetem àquela diversidade dos dons e carismas que o apóstolo Paulo se refere ao falar do único e uno corpo de Cristo que vive em seus irmãos, sem distinção nem divisão. Mas, mais do que isso, a postura de Dom Hilário diante da vida remete para aquela única raiz da qual nascem os muitos ramos da videira, o Cristo Filho de Deus. Numa outra imagem bíblica, a única pedra angular sobre a qual está construída a Igreja. Na sua entrevista, quando perguntado sobre os motivos pelos quais se tornou salesiano, ele respondeu que na sua infância, em Rodeio (SC), ele via os frades passando de um lado a outro – entre eles, ‘o santo Frei Bruno Linden’ – e desejava ser como eles. Mas como sua paróquia em Rio dos Cedros era atendida pelos salesianos, acabou se encaminhando para Dom Bosco. E, eu acabei brincando com Dom Hilário dizendo que Frei Alvaci havia escapado dele para se tornar franciscano.

Na medida em que fomos ouvindo e conversando com o pastor, fui percebendo quão relativas são essas ‘nossas’ distinções no âmbito eclesial, pra não dizer mesmo, quão sem importância e valor secundário elas têm. Na realidade, o que importa mesmo é essa ligação vital que estabelecemos com a ‘raiz’ da qual tudo procede, e que ninguém recebe por hereditariedade ou por mera integração numa associação religiosa. Dom Hilário se refere a São Francisco e a Dom Bosco com a mesma naturalidade porque, na realidade eles são traços do mesmo rosto. Fico pensando num certo proselitismo sectário falsamente religioso, que talvez cultivamos inconscientemente, e que busca olhar só para dentro do próprio redil...  Novamente me veio à lembrança o alerta do último Capítulo Geral de 2009, ao afirmar que “a Ordem sente-se chamada a ser menos auto referencial e a estar mais em tensão para o devir do mundo; a preocupar-se menos com o próprio futuro e mais com o destino da humanidade; a afanar-se não tanto em adequar suas estruturas internas, senão em adequar-se aos tempos que correm”.

A ordenação presbiteral de Frei Alvaci trouxe diante de nós, frades, a figura humana e religiosa de Dom Hilário Moser, como sinal do único ministério para o qual todos somos chamados a viver, em qualquer tempo, situação e lugar.

Frei Regis Daher, ofm

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