Nascido de mulher,
nascido sob a lei
Quem se lembra da antiga liturgia
gregoriana terá saudades, hoje, da
maravilhosa antífona Salve sancta
parens (“Salve, santa genitora”), a
participação de Maria no mistério da
Encarnação. Celebramos a oitava de
Natal. Ora, ao oitavo dia do parto
confere-se ao filho a circuncisão
(nome antigo desta festa),
acompanhada da imposição do nome.
É a integração na comunidade judaica.
A 2ª leitura ressalta a maternidade e o
rito judaico: “Nascido de mulher, nascido
sob a Lei” (Gl 4,4). Mediante a figura de
Maria é celebrada a inserção de Jesus
na humanidade, especificamente, na comunidade judaica. Pois Jesus não era “bom demais” para nascer como homem, nem para ser submetido à lei judaica. Com isso combina bem o fato de celebrarmos essa festa no início do ano civil, lembrando a bênção do ano novo israelita (1ª leitura), reforçada pelo pedido de bênção no salmo responsorial. Aliás, o nome que Jesus recebe (evangelho) é uma bênção: Ieshua (‘= “Javé salva”).
Através do nascimento maravilhoso, Maria deu Jesus à humanidade como um presente de Deus (cf. 4° dom. do Advento), no seio de um povo com leis e costumes, povo sobre o qual Deus faz “brilhar sua face”, e o nome de Jesus traz a bênção do Senhor Deus. Jesus, “o Senhor salva”, este é o nome que doravante será invocado sobre a humanidade (cf. Nm 6,27).
A mediação da comunidade de Israel no projeto salvífico de Deus nos ensina que Deus não ama em geral, abstratamente, mas através de pessoas e comunidades concretas. Só aquilo que é concreto pode ser realidade. Assim como Maria, no seio do povo de Israel, foi o caminho concreto para o Salvador, serão comunidades concretas as portadoras de Cristo como salvação de Deus para o mundo hoje. Assim, Maria é protótipo da Igreja e das comunidades eclesiais (cf. oração do dia).
A festa de hoje remete também à renhida discussão teológica que reclamou para Maria o titulo de Theótokos, “Genitora (Mãe) de Deus” (Concílio de Éfeso). Decerto, Deus não tem mãe, mas escolheu Maria como mãe para o Filho que em tudo realiza a obra de Deus. Santificou em Maria a maternidade quando o Filho assumiu a humanidade. Deus experimentou a realidade íntima da maternidade em Cristo. A maternidade é, como a humanidade, capax Dei, capaz de receber Deus... Deus é tão grande que conhece também o mistério da maternidade, e por dentro! (Para captar isso talvez tenhamos de modificar um pouco nosso conceito de Deus.)
Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes