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18/01/2009 - 2º Domingo do Tempo Comum/B
Evangelho Comentário Mensagem







Vocação: busca e convite


Nos três anos do ciclo litúrgico, o
domingo depois do Batismo do Senhor
tem como evangelho um trecho do
testemunho de João Batista diante
de seus discípulos e a vocação dos
mesmos por Jesus (próprio de Jo; não
está nos evangelhos sinóticos). Hoje
lemos encaminhamento de dois discípulos
do Batista junto a Jesus, que, respondendo
à busca deles, os convida a “vir e ver” e
a ficar na sua companhia. É a apresentação, tipicamente joanina, da procura do Salvador (nos outros evangelhos, Jesus se apresenta como irrupção Reino). Jesus é a resposta de Deus à busca do homem, assim como o A.T. fala da busca da Sabedoria, que se deixa encontrar pelos que a buscam (cf. Sb 6,14); busca de que devemos procurar enquanto se deixa encontrar (Is 55,6).

Descobrimos, pois, atrás da cena de Jo 1,35-39 (evangelho), toda uma meditação sobre o encontro com Deus em Jesus Cristo, que, mais do que a Sabedoria do A.T., é seu revelador. “Vinde ver...” é a resposta  misteriosa de Jesus à busca dos discípulos que o Batista encaminhou para ele, apontando-o como o “Cordeiro de Deus” (cf. ano A).

Pelo testemunho do Batista, os que buscavam o Deus da salvação o vislumbraram no Cordeiro de Deus, o Homem das Dores. Querem saber onde é sua morada (o leitor já sabe que sua morada é no Pai; cf. Jo 14, lss). Jesus convida o homem que busca a “vir e ver”. “Vir’ significa o passo da fé (cf. 6,35.37.44.45.65; também 3,20-21 etc.). “Ver” é um termo polivalente, que, no seu sentido mais tipicamente joanino, significa a visão da fé (cf. sobretudo Jo 9). Finalmente, os discípulos “permanecem/se demoram” com ele (“permanecer” ou “morar” expressa, muitas vezes, a união vital permanente com Jesus; cf. Jo 15,1ss). Os que foram à procura do mistério do Salvador e Revelador acabaram sendo convidados e iniciados por ele.

Um encontro como este ultrapassa a pessoa que encontra. Leva-a a contagiar os outros que estão na mesma busca. André, um dos dois que encontraram o procurado vai chamar seu irmão Simão, para partilhar sua descoberta (v. 41: “Encontramos!”). Este se deixa conduzir até o Senhor, que, de início, transforma seu nome em Cefas (rocha, “Pedro”), dando-lhe uma nova identidade. Na continuação do episódio (1,45), encontramos mais uma semelhante “reação em cadeia”. Como o Batista introduziu seus discípulos a Jesus, em seguida os discípulos procuraram outros candidatos (3).

A liturgia combinou com este misterioso texto a vocação de Samuel (1ª  leitura). O encontro com Deus não é uma coisa evidente. Três vezes Samuel ouve a voz, mas só pela orientação do sacerdote é capaz de reconhecer o sentido. Uma vez entendendo a voz, acolhe-a com plena disponibilidade, deixando-se ensinar para ser porta-voz de Deus, profeta.

As duas vocações apresentadas não são bem do mesmo tipo. No caso de Samuel, trata-se da vocação específica do profeta; no episódio dos discípulos de Jesus parece que se trata da vocação à comunidade dos seguidores; os primeiros chamados parecem representar a vocação de todos os fiéis. Eles não recebem logo uma missão específica, mas são chamados, antes de tudo, a “vir” até Jesus para “ver”, e a “permanecer/morar” com ele. Por um testemunho que vem de fora (de João Batista, de outros que já foram chamados etc.), o homem é encaminhado na busca do Salvador; a esta busca corresponde o convite de Deus em Jesus Cristo (“vem ver...”), provocando entrega e adesão (“permaneceram com ele”), que logo transforma o adepto em missionário (“foi encontrar seu irmão...”). Dentro desta dinâmica global da vocação cristã se situam as vocações específicas, como a de Simão, que, ao aderir a Cristo, é transformado em pedra fundamental da comunidade cristã.
A 2ª  leitura trata de uma das questões particulares abordadas em 1Cor 5-12: a fornicação. A oposição de Paulo à libertinagem sexual não se deve ao desprezo do corpo, mas à estima que ele lhe dedica. Pois ele sabe que o corpo não é alheio às alturas do espírito, mas antes, as sustenta e delas participa; por isso, qualquer ligação vulgar avilta o homem todo. O homem todo, inclusive o corpo, é habitáculo do Espírito Santo. O homem deve ser governado para este fim do homem integral, membro de Cristo, e não o homem subordinado às finalidades particulares do corpo. Absolutizar os prazeres corporais é idolatria -  mensagem que precisa ser destacada no contexto de nossa “civilização”...

(3) Estes traços da narração podem aludir à Igreja das origens, consciente de que o “movimento de Jesus” teve suas origens no “movimento do Batista” e de que, nas gerações futuras, os fiéis não mais seriam chamados por Jesus mesmo, mas pr seus irmãos na fé.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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