O Reino de Deus
está aí: Convertei-vos
Conversão é uma mensagem freqüente
na Bíblia. Mas ela não tem sempre o mesmo
conteúdo. Na 1ª leitura e no evangelho de hoje
encontramos a mensagem da conversão em
duas articulações bem diferentes, revelando a
distinção entre o antigo e o novo. Em Jn 3
(1ª leitura), trata-se de uma pregação ameaçadora,
dirigida à maior cidade que o autor conhecia,
Nínive, capital da Assíria; diante do medo que
a pregação inspira, a população abandona o pecado e faz penitência, proclamando o jejum e vestindo-se de saco; e Deus, demonstrando à “capital do mundo” sua misericórdia universal, poupa a cidade.
No N.T., trata-se da pregação inaugural de Jesus, não no centro do mundo, nem mesmo no centro do judaísmo, Jerusalém, mas num canto perdido, meio pagão, da Palestina: os arredores do lago de Genesaré, na Galiléia. Não anuncia uma
catástrofe, mas a plenitude do tempo. “Está cumprido o tempo”: chega de castigo (cf.
Is 40, 2; 2° dom. Adv. B), cumpriu-se o tempo das profecias, das promessas: o “Reino
de Deus” está aí. É uma mensagem de salvação, dirigida não aos cidadãos da capital do
império, mas aos pobres da Galiléia. Realizando as profecias de Is (40,1-2.9; 42,1;
61,1-2), o Filho que recebe toda a afeição do Pai, ungido com seu Espírito profético e messiânico (cf. Mc 1,11, batismo de Jesus), leva a Boa-Nova aos pobres, assumindo
sua opressão e demonstrando assim a compreensão verdadeira do amor universal de
Deus, que começa pelos últimos.
Enquanto a mensagem de Jonas logrou êxito por causa do medo, a mensagem de
Cristo solicita conversão na base da fé na boa-nova (evangelho).
A gente deve voltar a Deus, não por causa do medo de perder o bem-estar, mas levado por uma profunda confiança nos bens que ainda não conhece e que se tornam próximos em seu Enviado, resumidos no termo “Reino de Deus”. Este é o acontecer da vontade amorosa do Pai, como reza o Pai-nosso: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade”. A pregação da proximidade do Reino, por Jesus, significa: lá onde reina o amor, que é a vontade de Deus para com seus filhos e filhas, acontece o Reino de Deus. Na medida em que Jesus se identifica com esta vontade e a cumpre até o fim, até a morte, ele realiza e traz presente em sua própria pessoa esse Reino. Ele é o Reino de Deus que se torna presente. Todo o evangelho de Mc desenvolve esta verdade fundamental, que, nesta primeira mensagem do Cristo, está envolta no mistério de sua personalidade e palavra, mas, aos poucos, revelará seu significado para quem acreditar na Boa-Nova, sobretudo quando esta se tomar Cruz e Ressurreição.
Por isso, enquanto na história de Jonas a aceitação da mensagem faz Deus desistir de seus planos, sem que o povo se envolva com estes, em Mc 1 vemos que a proclamação da Boa-Nova exige fé e participação ativa no Reino, cuja presença é anunciada. A aceitação da pregação de Jesus faz o homem participar do Reino que ele traz presente. Essa adesão ativa, no evangelho de Mc, é exemplificada por diversas perícopes dedicadas ao seguimento. Aderir ao Cristo é seguí-lo. Por isso, imediatamente depois de ter evocado a primeira pregação de Jesus, Mc narra a vocação dos primeiros discípulos. Vocação esta que é uma transformação, pois faz dos pescadores de peixe “pescadores de homens”. E eles abandonam o que eram e o que tinham - até mesmo o pai no barco...
A 2ª leitura é tomada da secção das “questões particulares” da 1Cor (cf.. dom. passado). Ao fim de toda uma exposição sobre o matrimônio (recordando as palavras do Senhor) e o celibato (oferecendo seus próprios conselhos), Paulo esboça uma visão global referente aos estados de vida. O estado de vida é uma realidade provisória, perdendo sua importância diante do definitivo, que se aproxima depressa (Paulo, como os primeiros cristãos em geral, acreditava que Cristo voltaria em breve). Casamento, prazer, posse, como também o contrário de tudo isso, são o revestimento provisório da vida, o “esquema” (como diz o texto grego) que desaparecerá. Já temos em nós o germe de uma realidade completamente nova, e esta é que importa. Assim, Paulo evoca a dialética entre o provisório e o definitivo, o necessário e o significativo, o urgente e o importante. Mas esta dialética deve ser formulada novamente por cada geração e cada pessoa (4).
(4) Nossa maneira de articular não precisa ser, necessariamente, a da “santa indiferença”que Paulo demonstra, tendo em vista a vinda próxima do Cristo glorioso. Certo, repartiremos com ele um sadio “relativismo escatológico”(Quid hoc ad aeternitatem?”), porém, a maneira de relativizar o provisório pode ser diferente da sua. Relativizar significa “tornar relativo”, “pôr em relação”. Também o cuidado de viver bem o casamento, como qualquer outra realidade humana, como sejam o trabalho, o bem-estar etc., é uma maneira de relativizar, se este “vivem bem”significa: conforme a vontade de Deus, procurando em primeiro lugar seu Reino e sua justiça.
Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes