| 19/07/09 - 16º Domingo do Tempo Comum /Ano B |
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A compaixão de Jesus,
pastor messiânico
O evangelho esboça o quadro para a ação
seguinte de Jesus, a multiplicação dos pães.
Os discípulos voltam de seu "estágio pastoral",
contam tudo o que fizeram. E Jesus, dando um
exemplo para a Igreja futura, os convida a
descansar na sua presença, num lugar deserto
(o deserto, em Mc e em muitas páginas da Bíblia,
é o lugar onde Deus fala a seu povo). Mas aí
acontece o inesperado: chegando ao lugar deserto,
encontram uma multidão de gente, que acorreu por terra ao lugar aonde se dirigira o barco. Decepção no plano humano, mas hora da graça no plano de Deus. E então, Jesus tem compaixão da multidão, "porque eram como ovelhas sem pastor". Esta breve frase de Mc 6,34 evoca um mundo: toda a tradição bíblica acostumada a falar em Deus como o "Pastor de Israel" (cf. Is 40,11), título dado também a Moisés (Is 63, 11), aos reis e, sobretudo, ao rei messiânico, anunciado por Jr, Ez e Zc. Para quem sabe ler, significa que ele é o Pastor escatológico que chegou. Jesus, movido de compaixão (qualidade primordial de Deus: cf. Ex 34, 5-6) assume ser o pastor dessas ovelhas que não têm pastor, vindas de todos os lados para encontrá-lo (imagens de Ez 34 e 36). Uma situação humana inesperada torna-se realização da reunião escatológica do rebanho de Deus. Pela incansável "com-paixão" do Cristo, prepara-se a mesa para o banquete escatológico.
O simbolismo do pastor, no A.T., tem várias facetas. Nos textos clássicos de Jr, Ez e Zc encontramos a oposição entre o bom pastor (Deus ou seu enviado) e os maus pastores, que são os chefes de Israel e Judá (cf. festa de Cristo Rei/A). Que o significado do bom Pastor oscila entre Deus e seu enviado não é um problema para o leitor oriental: ele sabe que o pastor não é necessariamente o dono do rebanho; pode ser seu homem de confiança. Em Sl 23[22] (salmo responsorial), Jr 23,1-3 (1ª leitura), Ez 34,1-22, o pastor é Deus mesmo; em Jr 23,4-6 e Ez 34,23-24 e, sobretudo, em Zc 9,14, trata-se de seu(s) enviado(s). O N.T. vê a realização desta figura em Jesus Cristo (Mc 6,34; 14,27 cf. 16,7 e par; Jo 10, 1Pd2,25). A imagem do pastor nos lembra ainda a ternura descrita em Is 40,11.
No presente contexto predomina o fato de reunir o rebanho: a reunião escatológica das tribos dispersas. Falar do Bom Pastor significa falar de unidade (cf. Jo 10). Neste sentido, a 2ª leitura de hoje vem sublinhar a mensagem da 1ª leitura e do evangelho. Enquanto em outros textos, por exemplo, Rm 3,21-25, a idéia da reconciliação pelo sangue do Cristo - simbolismo cultual tomado do A.T. - se refere à reconciliação do homem com Deus, Ef 2 a aplica à superação da divisão da humanidade, divisão entre "o povo" (Israel) e "as nações" (pagãs). Agora, em Cristo, os que estavam longe (os helenistas, a quem a carta é dirigida) aproximaram-se. Isso foi realizado pelo sangue de Cristo, isto é, por sua morte, que marcou o fim do sistema de justificação baseado na Lei judaica, até então parede divisória da humanidade (alusão à parede que confinava, no templo de Jerusalém, o "átrio dos gentios"). Ef retoma aqui um tema caro a Paulo: se Jesus foi condenado pela Lei, mas ressuscitou, quem foi condenado é a Lei (cf. Gl 3,13-14). A Lei não mais separa os que pertencem a Cristo, sejam judeus, sejam gentios. Assim, Jesus anunciou a "paz" (o dom messiânico) aos de longe (os pagãos) e aos de perto (os judeus), linguagem que evoca a reunião escatológica presente também no simbolismo do pastor (cf. 1ª leitura e evangelho).
Do conjunto destas leituras depreendemos uma idéia para ser meditada: a reconciliação do homem com Deus o une com seus irmãos. Na prática, porém, o homem, muitas vezes, usa Deus para justificar discriminação, ódio, perseguição. De modo aberto, quando uma convicção religiosa se torna ideologia de combate. De modo velado, no coração do indivíduo, quando alguém se acha superior por razões religiosas. Jesus fez "dos dois um só povo", "um só corpo", o "homem novo", "em si mesmo" ("linguagem corporativa": a descendência está no patriarca, a comunidade no seu fundador). Este único corpo é, ao mesmo tempo, o do Cristo e o da comunidade constituída por ele. Ele veio a nós, dando-nos o poder de nos aproximar do Pai: movimento recíproco, cuja iniciativa está do lado da graça de Deus. Uma religião agressiva não é de Jesus Cristo. Este morreu, não para separar, mas para aproximar. Aquele que morreu por todos pode servir de pretexto para qualquer discriminação.
Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes
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