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15/03/2009 - Liturgia para o 3º Domingo da Quaresma – Ano B
Evangelho Comentário Mensagem







A adoração de Deus
e a cruz de Cristo


O tema central de hoje é a adoração de
Deus, aquilo que o A.T. entende por “temor
de Deus”: não medo infantil diante de um
Deus policial, mas submissão e receptividade
diante do mistério. Israel não pode “temer”
outros deuses (2 Rs 17,7.35 etc.). Só a
amizade (“graça”) do Senhor vale a pena temer
perder. Tal temor de Deus se expressa, antes de tudo, na Lei do Sinai, cujo resumo são os Dez Mandamentos (1ª leitura). Inicia com o mandamento do temor de Javé: só a Javé se deve adorar, pois ele é um Deus que age: tirou Israel do Egito. Mas o temor de Deus não diz respeito tão-somente à atitude diante de Deus, mas também ao relacionamento com o próximo (o co-israelita). Pois Javé não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem mutuamente. Daí o “culto” (veneração de Deus) implicar imediatamente um ethos (critérios de comportamento). No espírito dos antigos israelitas, o Decálogo era algo como um pacto feudal. Javé era o suserano, que fornecia força e proteção, mas esperava da parte do vassalo, Israel, colaboração e “temor”, a adoração de Javé e o relacionamento fraterno no seio do próprio povo. Pois, sem estas duas condições, Israel não valeria nada como “povo de Javé”. Em termos nossos: para servir (para) Deus, não basta ser piedoso; é preciso “ser gente” no relacionamento com os irmãos.

Jesus veio nos ensinar, não tanto por suas palavras, mas, sobretudo, por seu gesto de doação total, o que é obedecer a Deus e ser irmão dos homens. Seu gesto é mais eloqüente do que qualquer decálogo. Doravante, a adoração de Deus não mais se chama temor, mas amor a Deus (1Jo 4,18). Porque em Jesus Deus não se revela como guerreiro, como no tempo do Êxodo, mas como “meu Pai e nosso Pai” (Jo 20,18). Por isso, Jesus é o verdadeiro lugar de adoração de Deus. “Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores não mais adorarão no templo de Jerusalém ou no monte Garizim, na Samaria, mas em espírito e verdade”, i.é, naquilo que Jesus nos comunica (Jo 4,22-25). Evocando a visão da glória no templo (Is 6), Jo 1,14 escreve: “O gesto de comunicação de Deus se tornou existência humana e (nesta) nós contemplamos sua glória”. Jesus é o novo templo, lugar da manifestação da glória (cf. 2,11), sobretudo, na “hora” da morte (12, 23.28; 13,31; 17,1 etc.). Por isso, quando Jo narra que Jesus purificou o templo de Jerusalém, não destaca - como Mc - que Jesus se revoltou contra a abusiva correria e profanação no templo. Jo escreve que Jesus expulsou até os animais do sacrifício; em outros termos, pôs fim ao culto do templo; e no diálogo explicativo que segue (2,18-22), o corpo do Cristo ressuscitado e glorioso se revela ser o novo templo, que em três dias será erguido (evangelho).

Em tal contexto, entendemos o “fanatismo” com que Paulo anuncia a cruz de Cristo (2ª leitura). Escândalo para os judeus, porque a cruz é um instrumento indigno para a morte de um judeu. Loucura para os pagãos, com sua filosofia elitista (estóicos) ou hedonista. Mas para os chamados dentre todos os povos e nações, é a revelação da força de Deus e de sua sabedoria. Nós sabemos por quê: porque Deus quer conquistar corações, que se convertem diante da conseqüência de seu próprio orgulho. Por isso, o acesso a Deus acontece doravante no Cristo rejeitado, pois é nele que encontramos o gesto de reconciliação de Deus para conosco.

Chamamos a atenção para o canto da comunhão, a alegria de estar na morada de Deus, “con-templar”. O ativismo que invadiu a vivência cristã ameaça esta presença junto de Deus, que, contudo, é condição indispensável para colocarmo-nos em sintonia com sua maneira de salvar que é a cruz.

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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