Aprendizagem divina:
a hora de Jesus
“Dias virão”: esta expressão, no A.T.,
muitas vezes soa como uma ameaça.
Hoje, porém, anuncia uma promessa
das mais carinhosas: uma nova
Aliança (1ª leitura). A antiga tinha sido
rompida demasiadas vezes. Deus recorre
ao último recurso: uma nova... Será
diferente da anterior. A Lei não mais
estará escrita em tábuas ou em rolos,
mas no coração de cada um. E não
mais precisarão de mestre, pois todos
conhecerão Deus. Deus os toma
para si, esquecendo seus pecados.
O evangelho nos apresenta Jesus Cristo como cumprimento desta promessa. Veio a “hora”, hora de “glorificação”. Glorificação de Cristo pelo Pai, do Pai por Cristo (Jo 12, 23, 28; cf. 13, 31; 17). Pois a glória é o atributo mais próprio de Deus. Sem sua vontade, não há glória para o Cristo. Esta vontade manifesta-se, de modo dramático, numa antecipação da agonia de Jesus: “Salva-me desta hora, Pai!” A 2ª leitura, Hb 5, comenta esse momento, na conclusão de sua exposição referente a Jesus Cristo, Sumo
Sacerdote e Mediador: aquele que participa em tudo de nossa condição humana, menos
no pecado. Participa do abismo da agonia. Grita a Deus entre lágrimas, e é por ele ouvido, tirado, não da morte, mas da angústia da morte, porque se sabe na mão de Deus: eis o que ele “aprendeu”. Assim também em Jo: na hora da completa angústia, Jesus reconhece a vontade de Deus, não como algo terrível, mas como glória, ou seja, o íntimo de Deus revelando-se no amor de seu Filho para os seus: “Pai, glorifica teu nome” (12,28). Também nossa vocação, na Nova Aliança, é: conhecer Deus de perto (cf. 1ª leitura), do modo como o aprendeu Jesus (2ª leitura e evangelho).
O tema da aprendizagem divina é comentado na aclamação ao evangelho, o Miserere (Sl 51 [50]), inspirado em Jr 31: pede um coração novo, um espírito puro. Exprime com acerto a aspiração que animou o “tempo de quarenta dias”, que vai para o fim. Só falta ainda a etapa final da aprendizagem (de Cristo e de nós): a morte na cruz.
Conhecer Deus, seu modo de ser e de agir: “Se o grão de trigo não morre na terra, fica só; mas se morre, produz muito fruto”. Os exemplos da “lei do grão de trigo” são muitos, em nossos dias, na América Latina. Pois não foi só para Jesus que ela valeu. “Quem quer servir-me, siga-me, e onde eu estiver, ele também estará, e meu Pai o honrará” (12,26) (aclamação ao evangelho).
O homem moderno talvez se revolte diante desta temática: tal Deus é um opressor! Seria, se não fosse ele mesmo o primeiro envolvido, pois se trata de seu Filho. O que o Filho aprende é o que Deus é. Deus o “atende”, comungando com ele, na mútua comunicação da glória (Jo 12,28), vitória sobre o príncipe deste mundo (Jo 12,31). Também isso acontecerá - e já deveria estar acontecendo - conosco: comungar com o mais intimo de Deus na nossa total doação aos seus filhos, vencendo o mal que os oprime.
No 1° domingo da Quaresma esboçou-se a luta de Jesus contra o poder do mal.
Hoje, ao aproximar-nos da Semana Santa, descobrimos a arma com a qual Jesus venceu seu adversário: a obediência no amor até o fim.
Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes