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São Paulo, 13/02/2012
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08/11/09 - Liturgia para o 32º Domingo do Tempo Comum/B
Evangelho Comentário Mensagem






Jesus ensina a autêntica
generosidade

Os simples “se salvam pela
ignorância”. Para os escribas vale o
contrário: já que sabem, porém
escondem sua cobiça de honra,
banquetes e dinheiro atrás de longas
orações, “esses receberão sentença
mais severa”. Os escribas não são
os fariseus. Estes eram judeus
fervorosos, dados à observância da
Lei até os mínimos detalhes. Para
isso precisavam de assistência
teológica, que lhes era fornecida
pelos teólogos, os escribas. Os escribas
geralmente aderiam à tendência farisaica, que lhes garantia freguesia e  fama de santidade, mas nem por isso eram tão santos assim. Aconselhando “boas obras” às viúvas, proviam-se dos pobres recursos delas. Gostavam de todo tipo de precedência, até na boa comida. Nem todos, é claro (cf. ev. Dom. pass), mas muitos. Também hoje conhecemos os que explicam a Lei e os que  a aplicam. O evangelho de hoje faz uma oposição entre a falsa piedade dos escribas (a hipocrisia) e a verdadeira piedade de suas vítimas, as viúvas, sinônimo de pessoas desprotegidas. Cita o exemplo de uma viúva que, depositando algumas moedinhas no templo, coloca “todo o seu viver”(literalmente cf. o texto grego) nas mãos de Deus, enquanto as pessoas abastadas, embora com muita ostentação, só dão de seu supérfluo.

A índole da viúva é confiar em Deus, já que vive à mercê das pessoas. A 1ª  leitura nos narra um episódio para ilustrar isso. Elias está fugindo do ódio mortal que lhe dedica a rainha Jezabel, filha do rei da Fenícia. A fuga o leva à pátria dessa rainha. A fome o obriga a recorrer à casa de uma pobre viúva, antípoda da rainha. Ela está no fim de seus viveres. Vai cozinhar sua última farinha para si e seu filho, prevendo para depois a morte pela fome. Mas mesmo assim, dá preferência ao "homem de Deus" e lhe entrega seu último "viver". E Deus recompensa sua entrega total: sua despensa nunca mais ficará vazia.
 
A mensagem global destes textos é que certos "homens da religião" estão muito longe do mistério da generosidade que se realizou no encontro do "homem de Deus" (Elias) e a viúva de Sarepta - uma pagã. Muitos homens da religião correm às casas das viúvas para se enriquecer, não para encher as despensas delas. Entretanto fazem ostentação de uma piedade que é a negação mesma da piedade da pobre viúva. Será que isso só existia em Israel, no tempo de Jesus?
 
"Esses terão uma sentença mais severa" fica soando em nossos ouvidos. A liturgia aponta para o tempo final. Está na hora de um exame de consciência. Onde estamos: na singela generosidade das viúvas, ou na "hipocrisia" dos teólogos? Para ser como as viúvas, é preciso ter a verdadeira fé, a certeza de estar na mão de Deus. A oração do dia nos incentiva para recorrermos a Deus em todos os perigos e lhe ficarmos completamente disponíveis. Pelo outro lado, a religião dos teólogos e legistas é apenas letra no papel (além de exploração dos simples e desprotegidos), não é entrega da vida. Os cantos (salmo responsorial, aclamação ao evangelho) vêm ajudar-nos para escolher o lado certo.
 
Um aparte para a 2ª leitura. É o texto fundamental de toda a teologia sacramental, especialmente a que se refere ao sacrifício eucarístico. Cristo significa o fim de todos os sacrifícios. Não estou falando das mortificações pedagógicas nem das dificuldades reais que as pessoas devem enfrentar em sua vida, para serem fiéis à sua vocação. Mas sacrifício mesmo, no sentido de destruição de um objeto ou uma vida, para apaziguar Deus - isso já não tem vez, depois de Cristo. Cristo é o sacerdote que entrou no Santuário santificado por seu próprio sangue, no qual todos são santificados. Sendo homem verdadeiro (Hb 4,15!), vivendo a fidelidade à sua missão até o fim, mostrando que Deus é fidelidade e amor, Jesus aboliu todas as maneiras de aplacar Deus por sacrifícios violentos e sangrentos. Deus "se realiza" num escravo do amor até o fim, e desde que ele resumiu o culto a Deus nesta atitude, esta se toma para seus seguidores o único caminho de restauração e paz. Por isso, a cruz não pode mais ser repetida uma segunda vez. Nem se pode inventar outros meios para aplacar Deus, como, por exemplo, as obras da Lei: se estas salvassem, Cristo teria morrido em vão (Gl 2,21). O sacrifício de Cristo não se repete; só pode ser comemorado, atualizado sempre de novo em cada existência cristã, em cada celebração de sua eterna atualidade. Também a vida cristã, consagrada ao testemunho do amor e da doação, não é uma repetição da morte de Cristo, mas a participação na sua presença. E surge aqui a perspectiva da consumação final: Jesus voltará para completar a salvação dos que depositaram nele sua esperança.  

Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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