Ser discípulo:
investir
tudo no reino
Existe, no judaísmo, toda uma
tradição que considera a sabedoria
como o maior bem que se possa
alcançar na terra (1ª leitura). Seu valor
supera tantas outras coisas
consideradas valiosas: pedras
preciosas, ouro etc. Mesmo a saúde
não vale tanto quanto ela. Ora, se uma
coisa vale mais do que outra, e se
impuser uma opção entre as duas, a
gente tem que abandonar a que menos
vale. É o que acontece com o Reino de
Deus. Encontramos no evangelho de
hoje um homem que combinava riqueza
e vida decente (12). Tudo bem, sem
problemas. Está à procura da "vida eterna",
a vida do "século dos séculos", ou seja,
do tempo de Deus, que ninguém mais
poderá tirar. Poderíamos dizer: procura a verdadeira sabedoria, o rumo ideal de viver. Pedagogicamente, Jesus lhe lembra primeiro o caminho comum: observar os mandamentos. O homem responde que já está fazendo isso aí. Então, Jesus o conscientiza de que isso não é o suficiente. Coloca-o à prova. Se realmente quer o que está procurando, terá de sacrificar até sua riqueza (não vale a sabedoria do A.T. mais do que ouro?). O homem desiste, e vai embora. E Jesus fica triste, pois simpatizou com ele (evangelho).
Humanamente falando, é impossível um rico entrar no Reino que Jesus traz presente; tem amarras demais. Mas para Deus, tudo é possível. O homem rico quis entrar no Reino de Deus na base de suas conquistas: a vida decente, a observância dos mandamentos, a sabedoria inócua de ouvir mestres famosos, entre os quais Jesus de Nazaré (10,17; Jesus já rompe sua estrutura mental, insinuando que por trás do título "bom mestre", que o homem lhe atribui, se esconde a exigência de uma obediência total, pois só Deus é bom ... ). Ora, o que Jesus lhe pede é, exatamente, superar este modo auto-suficiente de proceder. Jesus quer que ele se entregue nas mãos de Deus, desistindo da vida decente cuidadosamente construída na base do trabalho, do comércio, do bom comportamento. Vender tudo e dar aos pobres, e depois, vir a seguir Jesus, fazer parte daquela turma de aventureiros galileus que Jesus reuniu em redor de si. Humanamente impossível. Só é possível para quem se entrega a Deus. É este o teste que Jesus aplicou. O homem rodou.
O resto do evangelho de hoje diz a mesma coisa em outros termos. Pedro, entusiasta, comparando-se com o rico, exclama que eles, os Doze, abandonaram tudo e seguiram a Jesus: que receberão agora? Jesus não confirma que Pedro realmente abandonou tudo, embora no momento da vocação parecesse que sim (1,16-20). Mas repete a exigência de colocar realmente tudo o que não for o Reino no segundo plano; e então a recompensa será o cêntuplo de tudo que se abandonou. Podemos verificar isso na realidade: sendo o Reino, desde já, a comunhão no amor de Deus, já recebemos irmãos e irmãs e pais e parceiros e tudo ao cêntuplo, neste tempo; e ainda (retomando o início da perícope, cf. 10,17): "a vida eterna", no tempo que é o de Deus.
Jesus não exige árido ascetismo, fuga do mundo, e sim, correr o risco de ir ao mundo em sua companhia, abandonando tudo o que nos possa impedir de fazer do Reino o critério decisivo. Já o próprio modo de abandonar faz parte do Reino: dar aos pobres (sempre há pessoas para quem nossos bens são mais vitais do que para nós mesmos). Neste sentido, o caminho da vida não é tanto o resultado de cálculo e esforço humano, mas de entusiasmo divino - ao qual nos entregamos com a lucidez que só a luz de Cristo nos dá.
A 2ª leitura acentua a mensagem do evangelho. Continua a Carta aos Hebreus. Jesus encama a Palavra de Deus, ativa na História, decisiva como uma espada de dois gumes: diante dela, devemos optar; neutralidade não existe.
A oração do dia merece ser proferida num ambiente de extrema concentração: a graça de Deus nos preceda e acompanhe para que prestemos atenção ao bem que somos chamados a fazer. Não somos nós que inventamos o bem, Deus o coloca como tarefa no nosso caminho. Por isso, devemos pertencer plenamente a ele, para que não passemos ao lado sem perceber as oportunidades que nos são oferecidas.
12. A liturgia segue o texto de Mc, no qual o homem não é um jovem rico e no qual não usa o termo “Reino dos Céus”, como estamos acostumados a ouvir no texto de MT, mas sim, “Reino de Deus”.
Do livro "Liturgia Dominical", de Johan Konings, SJ, Editora Vozes