São Paulo, Brasil, 13/02/2012, 09:37
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02.12.08



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Dom Frei João Bosco Barbosa de Sousa

VIVER SERVINDO: PODE HAVER MAIOR ALEGRIA?

Passam os anos (alguns dirão, muitos!), mas Antonia é dessas pessoas que só tem uma palavra diante dos olhos: servir. Desde a instalação da Paróquia de São Francisco de Assis na Vila Clementino em São Paulo, tempo em que os frades tinham a seu dispor toda a quadra entre a Rua Borges Lagoa e a Pedro de Toledo, até o tempo presente, onde a Paróquia ficou espremida entre grandes arranha-céus, Antonia está presente sempre e fazendo a mesma coisa: servindo aos frades e à comunidade.

Convivi mais de perto com Antonia por nove anos, não em seqüência, mas espalhados num período de vinte e cinco anos. Por três períodos estive na Vila Clementino, como pároco da São Francisco. Foi o meu primeiro encargo de pároco, por quatro anos. Voltei depois por um triênio. Por fim, dois anos antes da nomeação episcopal para União da Vitória, estive novamente na mesma paróquia, de onde guardo muitas lembranças boas e grande parte do itinerário que me levou ao chamado de Deus para o episcopado. Antonia faz parte da história, minha e de muitos outros frades. Merece pois, ser recebida como “frei” da nossa Província.

“Todos, pra mim são iguais!”

Posso imaginá-la servindo a paróquia nos tempos do severo Frei Felisberto, homem que arranjava recursos onde não havia e, com olhos de profeta, construiu naquele bairro então afastado uma igreja muito grande e bonita, com sólida casa paroquial, vitrais, imagens preciosas, e enormes sinos de bronze, descabidos na época para aquele fim de mundo. Afinal, à época da construção da paróquia, a Vila Clementino era um bairro da periferia de São Paulo que cresceu ao redor do Matadouro Municipal e era formado pelas casas dos funcionários do matadouro e muitas chácaras esparsas.

Desde criança, Antonia vive na Rua Estado de Israel, naquele tempo chamada de Rua do Tanque, nome este que remonta ao tempo em que as boiadas desciam levantando poeira pela Rua Sena Madureira e vinham até essa rua para beber água nos tanques, antes de serem levadas ao matadouro. Antonia deve ter bebido sangue de boi, como era de costume dos pais de então. Talvez isto ajude explicar sua invejável saúde. Trabalhou em uma indústria têxtil até sua aposentadoria e depois, passou a servir em tempo integral aos frades: uns alegres, outros ranzinzas, bonachões ou escrupulosos. De uns recebeu agrados, de outros sequer uma palavra de agradecimento. Servia à mesa, às vezes cortava as unhas, fazia compras, servia no altar. Nunca aceitou nada em troca. Sempre disse que gostava de todos os frades, de modo igual. Se bem que suspeita-se que para ela alguns eram “mais iguais” que os outros.

“Ainda vão precisar de mim”?

Quem era sempre igual era a Antonia. Já no meu primeiro período como pároco, seu serviço começava de madrugada, abrindo a igreja para a missa das sete horas. Dava tempo de arrumar as coisas para a missa e participar, sempre no primeiro banco da esquerda, vigiando a porta da sacristia. Ela ainda não fazia o café da manhã, porque a Severina, folclórica cozinheira daquela época, chegava também muito cedo. Mas era Antonia que fazia a feira, contava – com mais duas senhoras – as coletas, anotava os valores. Fazia pagamentos no banco, buscava encomendas. Enfim, estava sempre pronta e disposta para qualquer serviço que a paróquia precisasse. Ia a pé, de ônibus, metrô e voltava contente com a tarefa feita. Ia e voltava pra casa, onde morava com a irmã e o cunhado, porque também cuidava deles. Voltava novamente pra arrumar o altar, se tivesse missa ao meio dia, às três da tarde ou a hora que fosse. Depois da última missa, quem fechava a igreja era outro servidor silencioso: o Zé Surdo, falecido pelos anos 90.

Antonia vinha então para a grande casa paroquial e arrumava o jantar para o frade que estivesse em casa. Nesta casa, havia então, no andar de cima, uma sala ampla de grandes poltronas, onde os frades se espichavam depois do trabalho do dia para assistir TV ou para alguma outra distração. Ela subia e descia as escadas várias vezes. Trazia um lanche pra um, uma notícia pra outro, um remédio ou um chá. E já deixava arrumada a mesa do café da manhã do dia seguinte. Voltava para sua casa já perto das dez da noite, não sem antes perguntar: “ainda vão precisar de mim?”. Sempre foi muito discreta, jamais expondo a outros coisas da vida dos frades. Não sei por que estou narrando com o verbo no passado, pois ela ainda continua a fazer tudo isso, e mais: a Severina foi embora, o Zé Surdo morreu e ela continua fazendo o café, o suco preferido de cada um, e ficando até fechar a igreja. De manhã à noite, sempre servindo. Sem um dia de descanso, sem poder nem ficar doente, para ninguém mexer na sua sacristia.

“Ora, por que querem saber?”

Tenho poucas fotos de Antônia. Uma delas foi no dia da minha primeira posse como pároco. Ela participou da procissão das ofertas me trazendo o cálice. Desde então descobri que não gosta de se deixar fotografar, fugindo o quanto pode das lentes curiosas das câmeras. Escondia-se. Dizia não aceitar os seus cabelos brancos (já os conheci assim brancos há vinte e cinco anos).Hoje não precisa mais de desculpas pela ausência nas fotos; todos que a conhecem respeitam esta sua “excentricidade”. Não gosta de participar das solenidades, só dos bastidores. Não se senta à mesa com os frades (“será possível: isto é falta de respeito”, diz). Prefere comer de pé, ou ficar rodeando a mesa, andando e servindo. Nas festas de casamento sempre conheceu todos os maîtres dos buffets. Entrava pela cozinha da festa, pedindo um pratinho de salgados e doces “para os meus freis...” explicava. E os levava a eles, invariavelmente. Com o passar do tempo, ninguém mais sabia dizer quantos anos tinha Antônia. Escondia a idade. “Por que querem saber?”. Um dia, foi escolhida para testemunha de um casamento, desses de legitimação. Peguei o formulário e fui preenchendo com seus dados pessoais: nome? Endereço? Quando perguntei a idade, ela respondeu de pronto: “Ponha aí o que o senhor quiser”. E não me disse a idade. Frei Anacleto brincava, que ela tinha sido garçonete da Santa Ceia; outro dizia ter visto sua idade nas anotações de Frei Felisberto, na lista das Filhas de Maria, e arriscava uma idade no chute. –“Mentira!”, diz Antonia. Outro dia alguém dizia que, decerto, ela deve ter uns 105 anos, provocando. Antonia não perde o bom humor. Sempre servindo, sempre alegre, sem aceitar nada em pagamento, ou até contrariada por receber algum presentinho. Sempre vestida com simplicidade, a pouca vaidade que tinha era enrolar uns “bobs” no cabelo no final da semana, para passar o domingo todo servindo em todos os horários de missa, sem parar um dia. Fazer folga por quê? Ali era sua alegria, a sua vida, o segredo da sua vitalidade.

Rezar com a vida

Com mais horas de igreja “do que os urubus, de vôo”, não se pode dizer, no entanto, que Antonia seja uma “beata”. Beata, dessas que ficam olhando pra alguma imagem, em êxtase. Nunca foi de longas leituras, nem de citar a Bíblia. Não tem dúvidas teológicas nem preocupações com culpas de pecado. Até gosta de contar vantagem de sua juventude, citar alguns galãs, uns seus amores do passado que – acho mesmo – foram amores mais santos do que os de uma religiosa de hoje em dia.

Não é, definitivamente, de ficar tão absorta em rezas que perca de vista alguém que entrou na igreja, na sacristia ou passou perto da cesta de coleta. Sei que ela reza e, especialmente sofre, quando alguém da família está doente, algum sobrinho precisa passar na prova, arranjar um emprego, ou algum dos paroquianos lhe conta algum fato triste. Reza com a vida. É até hoje, fiel à eucaristia diária, pois, mesmo quando os frades estão de folga nas segundas feiras, ela vai até São Judas, ou Moema, ou mesmo o Largo São Francisco, pra não perder a missa de cada dia.

Não há paroquiano que a não a conheça. É invejável sua memória; antes das missas, gosta de passear pelos bancos da igreja, cumprimentando a todos e perguntando sobre a família, parentes, as crianças... Muito falei até agora sobre o seu serviço para com os freis. Não posso esquecer sua atenção e carinho para com todos que entram na igreja. Sempre com aquele sorriso nos lábios e pronta para escutar, tenho certeza que Antonia ajudou e ajuda até hoje muitos casamentos a não serem desfeitos, muitas brigas entre pais e filhos serem resolvidas, muitas famílias terem a paz doméstica readquirida por causa dos seus conselhos e principalmente pelo seu modo simples de encarar a vida e os fatos. Sempre de um lado pro outro, cuidando de tudo, muitos tem na figura da Antonia um fiel e zeloso Anjo do Senhor a cuidar de Sua casa e de Seus filhos.

“Homenagem, pra que isso?”

Sei que a homenagem mais do que justa que lhe presta a Província Franciscana não é, contudo, recebida pela Antônia sem contrariedade. Por ela, não precisava de nada. Ficou abalada quando divulgaram por conta disso – de público – a sua idade. Imagino que lhe seja difícil aceitar ser homenageada – e fotografada!. Até os seus aniversários a gente tem que disfarçar, e juntar com o aniversário de Frei Alécio, que é no mesmo dia, para que ela aceite um bolo de festa. Talvez ela não goste de datas pois sempre se recusou a ficar e viver para o passado. Por ela, continuaria apenas servindo, na sacristia, e na casa paroquial, como sempre fez, sem nenhuma homenagem. Nas vezes que saí da Vila Clementino, transferido, uma vez para o Rio de Janeiro e outra para Pato Branco, no Paraná, falei com sinceridade e amizade para Antonia que ela preparasse alguém para continuar o seu trabalho na sacristia. Que ela não se fizesse insubstituível. Que a ocasião ia chegar, e que os frades não tivessem que dizer a ela que não podia mais fazer tudo sozinha. Ela ouviu com atenção, mas nada fez. Não encontrou ninguém que a pudesse ajudar. E não queria mesmo encontrar. Agora que os frades escolheram outra pessoa para fazer esse trabalho, mesmo resmungando ela aceitou. Mas não deixou de servir. Imagem de Cristo servidor. E assim será, até enquanto Deus Pai permitir.

Dom Frei João Bosco Barbosa de Sousa
Bispo da Diocese de União da Vitória – PR

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