São Paulo, Brasil, 02/09/2010, 16:39
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08.12.08



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Por Moacir Beggo

Os frades da Fraternidade de São Francisco da Vila Clementino e da Província da Imaculada Conceição do Brasil ganharam neste domingo (7/12) uma irmã: Antônia Paschoal. A homenagem da Ordem dos Frades Menores foi feita durante a celebração eucarística de afiliação de Antônia à Ordem dos Frades Menores, às 11h30, presidida pelo pároco Frei Djalmo Fuck e concelebrada por Frei Raimundo de Oliveira Castro, Frei Agostinho Piccolo, Frei José Francisco de Cássia dos Santos, Frei Heitor Cella, Frei Aladim Uber, Frei Luiz Henrique Aquino, o diácono Thiago Hayakawa, Frei Régis Daher e Frei Walter de Carvalho Jr.  

Como era de esperar, a celebração teve momentos de alegria e muita emoção, especialmente quando Frei Djalmo entregou para Antônia o diploma da Ordem dos Frades Menores, enviado pelo Ministro Geral, Frei José Rodríguez Carballo, e Frei José Francisco entregou a ela o hábito franciscano. “Nesta celebração, a Ordem Franciscana concede a ela este diploma, este título afiliação, eu diria assim o grau máximo da Ordem Franciscana de reconhecimento a alguém que dedicou a sua vida, a sua história, sacrificou quem sabe muito daquilo que ela poderia fazer por ela, por sua família, para se dedicar a esta comunidade, a esta igreja no serviço da sacristia e, sobretudo, no cuidado dos frades. A sua dedicação, o seu zelo, a sua discrição, tudo isso é lembrado nesta manhã”, explicou o pároco Frei Djalmo.

Frei Régis dispensou a apresentação de Antônia: “Quem não a conhece, não é?”, perguntou, explicando que esta é uma tradição da Ordem Franciscana, que vem desde o tempo de São Francisco. Na Província da Imaculada, ela se junta a outros cinco leigos que foram filiados à Primeira Ordem pela Província da Imaculada Conceição: Olga Barone, Léa Surian e Ary de Carvalho (falecidos) e Alice da Silva Ramos e João Carlos de Viglio.

 Antônia Paschoal recebeu da Cúria Geral Franciscana um diploma com os seguintes dizeres: “À prezada irmã no Senhor, Sra. Antônia Paschoal, querida e estimada por todos os frades da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Com sentimentos de gratidão por seu testemunho de vida abnegada, silenciosa e fiel, com enorme dedicação e absoluta discrição, por mais de 70 anos, ao cuidado dos frades da Fraternidade Franciscana e ao serviço da Paróquia São Francisco de Assis na Vila Clementino, em São Paulo, lhe concedo a afiliação à Ordem dos Frades Menores. Com a proteção de Maria Imaculada, Mãe de Deus, e pela intercessão de São Francisco de Assis, invoco sobre você a bênção de Deus Altíssimo. Frei José Rodríguez Carballo, Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores”.

De poucas palavras, discreta, como sempre fez o seu trabalho por mais de 50 anos na sacristia da Paróquia, Antônia fugiu enquanto pôde dos flashes, mas com a ajuda de Frei Djalmo, no final, falou com emoção que estava feliz por aquele momento e agradeceu aos frades da Província, especialmente aos que ela conheceu, e a todos presentes na celebração.

Gratidão e emoção nos depoimentos
Frei Djalmo fez uma pequena homilia e convidou seus confrades para dar testemunho do que representou e representa Antônia Paschoal  para a vida dos frades e da paróquia. 

Frei Heitor Cela abriu seu depoimento lembrando que conviveu com Antônia durante 21 anos nesta Fraternidade da Vila. “De vez em quando a gente mexia com ela: ‘Qual frade você gosta mais?’. Ela respondia: ‘É  tudo igual, é tudo igual’. Para mim, ela foi um exemplo de de serviço, de abnegação, de entrega, ao trabalho e ao reino de Deus”, disse Frei Heitor, hoje vigário paroquial na Paróquia e Convento São Francisco.

Frei Agostinho não poupou elogios. “Dona Antônia Paschoal, certamente, é um monumento na Vila Clementino, ícone da comunidade da Igreja São Francisco. Sou daqui, talvez o veterano dos frades presentes, e conheci quando ainda era coroinha, o início da Igreja de São Francisco na Vila Clementino, em 1942. Nós, franciscanos, viemos para cá nesta data porque estávamos na Igreja Santo Antônio do Pari iniciando uma outra paróquia, a de Santa Rita, no Brás. Para não ficar duas paróquias vizinhas, o superior franciscano e o arcebispo de São Paulo, o saudoso Dom José Gaspar, combinaram de assumir uma nova paróquia quase fora  de São Paulo, pois nesta época, aqui, só tinha mato. Conheci o primeiro pároco daqui, Frei  Honório Nache e, ao longo dos anos, na década de 70, tive oportunidade de freqüentar,  ao menos nos finais de semana, esta comunidade. Sábado à tarde para uma reunião de formação com um grupo de jovens e, no domingo de manhã, às 11h15,  para a missa dos jovens. Pude, então, conhecer um pouco mais esse ícone, esse monumento. Não sei se está faltando uma estátua aqui na frente da Igreja, talvez pudesse colocar agora a de não mais Dona Antônia, mas nossa irmã Antônia”.

Frei Tiago contou que residiu na Vila de fevereiro até agosto deste ano. “Talvez o verbo que resume esta liturgia que estamos celebrando hoje é o verbo preparar. Preparar os caminhos do Senhor. E essa é uma coisa que a Antônia faz muito bem. Prepara todo esse ambiente para nós celebrarmos a Palavra, a Eucaristia, mas muito além desta preparação, ela faz toda uma preparação aqui na casa dos frades. Eu cheguei aqui no começo de fevereiro, fiquei até agosto e Antônia sempre dispensou muito carinho e cuidado para com a gente. Essa é a marca fundamental da missão dela junto desta comunidade, principalmente junto aos frades. Sempre muito carinhosa e muito cuidadosa”.

Frei Aladim confessou que gostava de brincar com ela, principalmente porque sabia que ela não gostava que mexesse em seu cabelo. “Ela é uma pessoa que, se me permitem,  uma palavrinha define bem: humildade. Ela estava e está sempre pronta, com sua botinha, seus óculos escuros, sua sombrinha, embaixo de sol, de chuva, dentro de casa, preparando um delicioso café para os frades. Então, a sua afiliação hoje significa que a Ordem dá a seguinte resposta: a senhora cuidou de tantos frades, agora a Ordem também quer cuidar um pouco da senhora”.

Frei Régis, o comentarista da celebração, pediu licença para Frei Djalmo e contou que ajudou a preparar a documentação que foi para a Cúria Geral. Explicou o passo a passo do processo até chegar a Roma e confessou que os frades, na verdade, tinham medo de que Antônia não aceitasse a homenagem. “O que para nós é uma coisa simples, para ela pode ser uma grande dificuldade, porque passou a vida toda procurando se esconder dos holofotes. Tudo o que ela não gosta nós estamos fazendo hoje. Quer dizer, a afiliação dela está sendo a maior penitência de sua vida. Tanto que eu, o Frei Djalmo, o Moacir, ficamos conversando longamente com ela, depois o Frei Luis Henrique e outros frades, para que Antônia se convencesse de que era um presente de nossa parte. Ela dizia “eu não preciso disso”. Mas é um gesto de gratidão da nossa parte por ela existir, não é porque ela fez isso, fez aquilo. Antes de mais nada, na visão franciscana, ela recebeu  um dom de Deus, como cada um de nós. Antônia fez de sua vida um dom precioso porque ela não guardou nada para si. O fato de ela ter ficado solteira, ter cuidado da mãe, das irmãs,  da igreja em tempo integral é um sinalzinho da entrega que o próprio Cristo, Filho de Deus, fez à humanidade. O que é extraordinário não é a idade dela e nem os anos que ela ficou aqui, mas é a radicalidade na qual ela respondeu ao chamado, que também é feito a cada um de nós pelo batismo. Um dos argumentos que  usei para ela foi de que talvez isso sirva de exemplo para que novas 'Antônias' surjam”, desejou Frei Régis.

A celebração não poderia terminar sem um grande final. E foi o médico Hamilton Cruz, que é também Coordenador Pastoral da Paróquia da Vila Clementino, que surpreendeu a todos com o seu depoimento. “Conheci um jovem que vinha rezar sozinho nesta igreja, porque naquela época não acreditava sequer no padre. Achava que rezava só para Deus, não precisava de nenhum ser humano que intercedesse por ele. Quando esse jovem abriu os olhos, viu essa figura de cabelinho branco do seu lado, com um sorriso nos lábios e me perguntou: ‘Você é novo aqui?’. E ele disse: ‘Sim, acabei de me mudar’. ‘Que bom’, ela disse. ‘Você vai ficar para a missa?’. Eu respondi: ‘Não,  eu não costumo ir à missa’. Ela, no seu jeito simples, disse assim: “Ah, os padres daqui falam tão bonito, fique para a missa’. Esse moço ficou. Trouxe toda a família para a igreja e hoje está aqui diante de vocês nesse microfone”, confessou, interrompido pelos aplausos. “Gostaria que essas palmas revertessem a essa figura que eu costumo chamar de santa viva: a Antônia, que assim como eu, fez muitos corações e almas perseverarem na fé”, completou, entregando flores a Antônia em nome da comunidade. Ele resumiu o sentimento de todos no final: “Muito obrigado Antônia por você existir na vida de todos nós!”

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